7 de maio de 2026

Ela vai voltar?



Há mais de trinta anos que lecionava naquela escola. Conhecia cada sala, presenciara todas as reformas e conhecera vários diretores, dos quais muitos já descansavam eternamente. Continuava... 

O ânimo era quase o mesmo dos primeiros anos, mas os outros não pensavam assim. Era chamada de velha, de gagá, de ultrapassada. Ela acreditava que tinha muito, ainda, para contribuir. 

Um dia houve uma queda em casa. Quebrou o fêmur. Ficou internada. 

Vai tarde, disseram os alunos.

Seus companheiros não disseram nada.  

27 de abril de 2026

O almoço


Eram 15h30 quando ele foi almoçar. Às 9h30 não pôde, pois um aluno lhe pediu que corrigisse as atividades. Ao se aproximar do local onde se servia a merenda, foi recebido com rispidez pela merendeira. Pegou o prato e começou a se servir do restinho de comida no fundo da panela. Ouviu:

— Amanhã você traz comida. Professor não pode comer mais.

Baixou os olhos cansados e se afastou com o pouco que conseguiu.

10 de abril de 2026

Uma fotografia


Ela do presente segurava diante dos olhos a fotografia. Ela do passado lhe sorria, diante de uma bicicleta vermelha. Era menor, as roupas simples, o cabelo bagunçado. Estava presa a um tempo que não existia mais. Seu pai, sua mãe e avós, que também estavam ali, não alcançaram o presente; aquele céu de anos passados, aquelas árvores e aquela estrada: tudo ficara para trás. Será que o seu eu futuro, já morto, se lembrará de olhar nos olhos de quem um dia o observará?

7 de abril de 2026

Um mergulho



Ela reapareceu entre ondas, com os cabelos castanhos escorrendo pelos ombros bronzeados. Tinha um maiô comum, marrom e parecia ter uns trinta anos. Ele a via, mas o som do mar parecia confundi-lo. Talvez fosse a cerveja, o camarão, a idade. Ela vinha em sua direção? Encarava-o sedutoramente, enquanto todas as pessoas desapareciam. O som das ondas do mar ficou ainda mais alto.
Disse-lhe que se chamava Sem Futuro e que viera buscá-lo. 

27 de março de 2026

89



Lá na casinha do Vale os ouvidos quase surdos da Costureira ouviram o apito triplo do trem de Maquinista. Ele confessou a ela que, livre, teria uma serpente de ferro e levaria perdidos para lugares ainda mais perdidos um dia; que ao sair da estação soaria o apito por três vezes para ela.

13 de março de 2026

Barco de papel


Ele nunca soube fazer um barco de papel. Ela tentou lhe ensinar, mas logo percebeu que a tarefa seria difícil.

— Dobra aqui, olha — ela falou.

As mãos dele não eram boas para arte, mas a alma, sim.  O sorriso que via nela daria poesia.