27 de abril de 2026

O almoço


Eram 15h30 quando ele foi almoçar. Às 9h30 não pôde, pois um aluno lhe pediu que corrigisse as atividades. Ao se aproximar do local onde se servia a merenda, foi recebido com rispidez pela merendeira. Pegou o prato e começou a se servir do restinho de comida no fundo da panela. Ouviu:

— Amanhã você traz comida. Professor não pode comer mais.

Baixou os olhos cansados e se afastou com o pouco que conseguiu.

10 de abril de 2026

Uma fotografia


Ela do presente segurava diante dos olhos a fotografia. Ela do passado lhe sorria, diante de uma bicicleta vermelha. Era menor, as roupas simples, o cabelo bagunçado. Estava presa a um tempo que não existia mais. Seu pai, sua mãe e avós, que também estavam ali, não alcançaram o presente; aquele céu de anos passados, aquelas árvores e aquela estrada: tudo ficara para trás. Será que o seu eu futuro, já morto, se lembrará de olhar nos olhos de quem um dia o observará?

7 de abril de 2026

Um mergulho



Ela reapareceu entre ondas, com os cabelos castanhos escorrendo pelos ombros bronzeados. Tinha um maiô comum, marrom e parecia ter uns trinta anos. Ele a via, mas o som do mar parecia confundi-lo. Talvez fosse a cerveja, o camarão, a idade. Ela vinha em sua direção? Encarava-o sedutoramente, enquanto todas as pessoas desapareciam. O som das ondas do mar ficou ainda mais alto.
Disse-lhe que se chamava Sem Futuro e que viera buscá-lo. 

27 de março de 2026

89



Lá na casinha do Vale os ouvidos quase surdos da Costureira ouviram o apito triplo do trem de Maquinista. Ele confessou a ela que, livre, teria uma serpente de ferro e levaria perdidos para lugares ainda mais perdidos um dia; que ao sair da estação soaria o apito por três vezes para ela.

13 de março de 2026

Barco de papel


Ele nunca soube fazer um barco de papel. Ela tentou lhe ensinar, mas logo percebeu que a tarefa seria difícil.

— Dobra aqui, olha — ela falou.

As mãos dele não eram boas para arte, mas a alma, sim.  O sorriso que via nela daria poesia.



19 de fevereiro de 2026

Pingente de estrela


A mãe mostrou-lhe uma corrente com um pingente de estrelas, perguntando de quem era. Lembranças só dele, escondidas com muito empenho, ressuscitaram com violência; eram do dia em que o amor perdido usou aquele colar; da última vez que se amaram. Ela esqueceu a bijuteria sobre o criado mudo quando foi embora e nunca mais soube dele até ali. Dela, sabia que se casara, tinha filhos e vivia aparentemente feliz, embora perguntasse a si mesmo se se lembraria do pingente de estrela. Ele não se casou, não teve filhos, não vivia aparentemente feliz.