Ela terminou sua oração. Estava de frente ao túmulo, já fazia quatro ou cinco anos, não se lembrava ao certo. Após aquela perda, sentiu-se sem rumo, isso se lembrava. Ausência, insegurança, mudança, todas essas coisas estavam nela. No jazigo ficava alguma coisa sua de que sentia falta.
3 de novembro de 2026
14 de setembro de 2026
O corredor
E ele gesticulava com animação, andando de um lado para o outro. Falava da luz, das criaturas e do homem. Estava no meio do corredor, por onde transitava muita gente, mas ninguém lhe dava a mínima atenção.
O seu espaço ao lado, vazio. Seus livros, meticulosamente arrumados. Não havia vendido nenhum.
Desviavam dele, riam. Um comentava com outro sobre ele.
Deus não se importava: bastava a si mesmo.
27 de agosto de 2026
Gerúndio
Ele foi crescendo sem ninguém dar a mínima. Indo à escola, mas, não, estudando. Aprendendo o que não devia. Formando-se pouco, quase nada, mão de obra barata. Trabalhando, comendo, sobrevivendo. No fim: ignorando, rindo, sofrendo.
Morto.
14 de agosto de 2026
Não pode tocar
Mãe Estela repetiu que ninguém, a partir dali, poderia tocá-la. Se conseguisse, teria o sucesso que tanto sonhava e seria muito rica. Érica assentiu, selando o pacto, não se importando com as consequências de falhar.
Com os anos, conseguiu riquezas que achava impossível a alguém ter; seu nome se tornou mais conhecido do que o do presidente do país. Sentiu-se tão poderosa que não viu mal em descumprir o combinado com Mãe Estela e quem ela representava.
Uma noite incrível, tinha se esquecido do quanto era bom. Cansada, dormiu, para sempre.
12 de agosto de 2026
Para minha mãe
Ao ouvir o seu nome sendo anunciado, ela se levantou. Partiu por entre a fileira de formandos, roçando a barra da beca em outras becas. Um filme passou-lhe pela mente enquanto caminhava para o palco mal iluminado. Era sobre suas mães. Sim, Letícia tinha duas: a mãe mãe e a mãe avó. Ambas estavam na plateia tirando fotos.
Subiu pelo canto do palco e caminhou em direção aos professores e diretores ao som seco do salto sob o tablado. Ganhou os abraços de costume, pegou o canudo e foi ao microfone central. Com lágrimas nos olhos, agradeceu àquela que a criara; lhe dera caráter, estudo e dignidade.
A senhora a fitava da plateia, orgulhosa. Dessa vez acertara como mãe.
23 de julho de 2026
Parabéns
E ele que não queria festa, não tinha ânimo, acabou ganhando a celebração mais bonita da sua vida. Percebeu o quanto era amado, querido e importante. Pousou para foto, junto aos filhos e a esposa, tentando manter a seriedade de sempre, embora a felicidade quisesse escapar pelos cantos dos lábios.
— Pronto. Agora vamos comer — disse.
Foi a última fotografia.


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