18 de maio de 2018

O quinto capítulo de V de Verônica já está no ar


Prezados amigos e leitores, venho lhes informar que o quinto capítulo do livro "V de Verônica" foi adicionado ao Wattpad. Veja o link:

https://www.wattpad.com/576453407-v-de-ver%C3%B4nica-cap%C3%ADtulo-5

Dê uma força por lá, comente, indique.

Se quiser ler todo o livro, você pode comprá-lo aqui por apenas R$1,99.

Olha o livro no Issuu:

15 de maio de 2018

Fora do Tempo de David Grossman


Transformando dor em arte

Creio que das dores mais intensas e constantes que alguém pode sentir, perder um filho ocupa lugar de destaque, se não o pódio. Lidar com a vida, após a tragédia é tarefa difícil e por vezes angustiante, pois trata-se de luto que não passa, de tempo que não muda. O que cada um escolhe fazer nesta situação é fundamental; David Grossman, pacifista, jornalista e autor israelense, resolveu fazer arte. O resultado? A obra Fora do Tempo, talvez única da perspectiva adotada. 

Fora do Tempo é uma fantasia complexa, escrito em diálogos/versos ao estilo epopeia clássica que narra a história de um pai, inicialmente chamado de Homem, mas depois de Caminhante que decidiu viajar para "Lá", a fim de reencontrar o filho falecido. Em sua jornada ele vai conhecendo outros personagens excêntricos, como o Anotador dos Anais da Cidade (o narrador do livro), Centauro, Parteira, Duque e Sapateiro, cada qual com sua própria história de luto. 

Trata-se de uma história de difícil interpretação, seja pelo modo adotado pelo autor em sua construção, seja pela tradução do hebraico para o português. Os diálogos são construídos em versos curtos, secos e diretos que lembram à poesia. Aliás, muitas falas podem ser interpretadas isoladamente como odes ao luto, à dor, saudade e nostalgia. Grossman que também é filósofo tem uma visão singular sobre o morrer. 

A impressão que se tem ao chegar às últimas linhas das 130 páginas de Fora do Tempo é a de que a dor produz arte; de que a experiência por pior que seja fornece os argumentos necessários para se expressar no mundo; deixar o relato e a homenagem que no presente caso é bela e única. Não se trata de um livro que conta a história de um pai que perdeu um filho e sente sua falta como muitas outras já escritas, mas sim a de um pai que se transforma a cada dia, se inventa para tentar estancar o ferimento aberto pela perda do ente amado. Metáforas e outras figuras de linguagem empregadas com exatidão para justificar uma vida que perdeu massa importante. 

A Literatura de David Grossman é prova de que um escritor pode fazer o que bem entender com suas palavras; pode escolher no que transformar um dor pungente. Um livro triste, mas não por isso menos belo. Fica a resenha e a dica. 

Abraço!
Paul Law          

4 de maio de 2018

V de Verônica - Capítulo 4

Capítulos anteriores podem ser lidos aqui.



Fomos chamadas. A audiência ia começar. Entrei, sentei-me de frente ao escrevente judiciário. Minha mãe permaneceu do lado direito da mesa de madeira, retangular, ao passo que o promotor de justiça ficou do lado esquerdo. O juiz estava atrás de sua escrivaninha num deck superior um pouco a frente, a minha esquerda. A sala era ampla, bem arejada e bem pintada, de branco.
— O nome da senhora? — foi a primeira pergunta do juiz.  
Pensei no meu nome verdadeiro e quase me trai. Respondi:
— Verônica Albuquerque Gonçalves. 
— A profissão?
— Comerciante. 
— A senhora está sendo processada pelo crime de Omissão de Socorro e sua prisão preventiva foi decretada como medida de segurança. O objetivo desta audiência não é saber se houve crime ou não, mas averiguar as condições da prisão. A senhora foi maltratada pela autoridade policial? 
— Não senhor. 
— Certo. Doutor Cícero? 
— Excelência, o Ministério Público se manifesta no sentido da manutenção da prisão da acusada. Devido a peculiaridade do caso, até que mais provas sejam produzidas, entendo que ela deve ser mantida sob custódia. 
— Doutora Valéria?
— A defesa requer a liberdade da acusada, uma vez que é primária, tem domicílio certo e emprego, não havendo nada que a desabone. A prisão é medida última, devendo ser adotada apenas nos casos em que o acusado represente perigo à sociedade. Não é o que se evidencia no presente caso, Excelência. 
O juiz deslocou sua cabeça levemente para o lado a fim de ver minha mãe. Sorriu e disse:
— Doutora, embora seus argumentos sejam válidos, não podem ser aplicáveis ao caso. Há, como posso dizer? Variáveis. Até que se verifique o grau de perigo que a senhora Verônica efetivamente representa é prudente mantê-la sob vigilância.
 — As pessoas não são inocentes até que se prove o contrário? Não há provas contundentes de que esta menina possa fazer o que dizem que pode. Apenas um dossiê de um repórter de índole questionável. 
— Repórteres são perigosos, doutora Valéria. Eles domam o povo. As pessoas lá fora já julgaram sua cliente. 
— Vossa Excelência vai fazer o mesmo? 
O juiz fez uma careta. Respondeu:
— De forma alguma. É para ter um julgamento justo que vou acatar a manutenção da prisão.
— Isto é um absurdo! Já ponderou que esta menina não matou ninguém? Que ela tem família; trabalho. É evidente que ela é humana, merece ser tratada com dignidade. 
— Não sabemos se ela é humana, doutora Valéria. Depois dos exames, se for constatado que ela realmente é uma cidadã, posso reavaliar o caso. Por ora, a prisão está mantida. A audiência está encerrada. 
Minha mãe não retrucou, mas não deixou de manifestar sua indignação. Ali mesmo, pouco antes dos policiais entrarem para me escoltarem ela me disse:
— Fique tranquila. Vou fazer um novo pedido de liberdade. Dessa vez por escrito e vamos brigar com isso até a última instância se for preciso! 
Eu sorri para ela pouco antes da porta se fechar atrás de mim. Levaram-me de volta ao Salão do Júri, onde Meire e outros policiais me aguardavam. No caminho, porém, fui impedida de chegar ao meu destino por repórteres. Eles nos cercaram a disparavam perguntas, ao mesmo tempo em que esticavam os braços com gravadores, celulares e microfones. Os policiais forçaram passagem, mas tive tempo de ouvir algumas perguntas, tais como “é verdade o que o Marcelo escreveu sobre você?”, “o Governo Americano é o responsável pelas experiências?”, “Há outros?”, “você é alienígena?”
No meio de todos aqueles braços eu vi a pessoa que esperei noite passada; que eu tinha certeza que viria e não veio. Bem, eu não estava errada quando supus que não o deixariam entrar. 
— Verônica! — ouvi nitidamente a voz de Felipe. 
Tentei parar, mas minha escolta forçou o passo e me empurrou para o Salão do Júri.  
— Esperem! Tem alguém que preciso ver lá fora! — eu falei aos policiais. 
Meire se aproximou e com gestos questionou os policiais sobre o que estava acontecendo. Eu mesma respondi:
— Alguém importante para mim está lá — apontei para a porta.
Felipe era importante. Um companheiro, um amigo. O único. 
Ele era professor e trabalhava na Escola Estadual próxima a minha loja. Gostava do que fazia, ajudar as pessoas, sabe? Escolheu a profissão pelo fator humanitário e não o financeiro, permanecendo muitas horas e quase todos os dias na escola.   
Nos conhecemos no dia em que ele passou no meu estabelecimento para comprar um livro. Foi aí que me contou de seu trabalho. Falamos de outras coisas também. 
Ocorreram mais visitas a pretexto de comprar o jornal diário. Fomos conversando sobre assuntos variados. Eu lhe indicava alguns livros, ele comprava todos. Certo dia, Felipe comentou comigo que haveria uma festa beneficente na comunidade em que residia; que eu era sua convidada especial. 
Depois daquela noite nos tornamos mais próximos. Ele era um homem religioso e isso me deixa um pouco envergonhada. Sou egoísta? Felipe não é. 
Ele tinha trinta anos, não possuía carro ou moto e sempre me dizia que era bobagem gastar dinheiro com isso se possuía boa saúde para pedalar e dinheiro para pagar coletivos. Era engraçado que em nossos encontros (se é que posso chamar assim), passávamos um tempo gostoso dentro de ônibus. Conversávamos muito nessas oportunidades. Era como ser adolescente para sempre por mais irônico que isso possa parecer. Felipe era alguém que tinha uma alma jovem, cheio de esperanças; que acreditava na humanidade.


O livro completo pode ser adquirido por R$ 1,99 aqui.  

27 de abril de 2018

Uma menina e uma cadeira - segundo ato

O primeiro ato pode ser lido aqui.



Segundo Ato

Uma jaula desce do céu e se ajusta à menina e sua cadeira. O policial sai pela direita. Música alegre começa a tocar, entra um casal dançando tango. Ela uma moça pequena, de pernas grossas, salto alto, vestido vermelho, luvas negras até os cotovelos e um coque bem feito nos cabelos negros. Ele um jovem alto, magro, de calças negras, sapatos negros bem lustrados, camisa branca, arregaçada nas mangas, o rosto limpo, os cabelos penteados para trás, fixados por gel.
— Bravo! — Atriz bate palmas.
O casal agradece com uma reverência.
— Eu bem que gostaria de dançar assim. Na maioria das vezes sinto-me livre, capaz de tudo, mas algumas vezes os meus olhos me traem e fico triste. Bem, acho que são as algemas e esta jaula enorme que caiu sobre mim.
— Que fez para ser presa? — pergunta o dançarino.
— Gosto de pensar sobre prisão. Acho que ela só ocorre se o detido permitir. Veja Anne Frank, por exemplo, ela viveu parte de sua vida em um porão de uma fábrica, mas não se viu presa. Pelo contrário, estar ali era sua liberdade. Sabe o motivo? Ela tinha imaginação, esperança e palavras. Eu tento imitá-la, embora nossas situações sejam completamente diferentes.
— Você é doida? — é a vez da dançarina perguntar.
— Quem não é? Estes tempos deixam todo mundo maluco. Eu me preocupo. Fico imaginando como são as pessoas de verdade; como são vocês, dançarinos, de verdade. Como se chamam?
A dançarina se chama Dolores e o dançarino se chama Bernardo.
— Pois bem, como Dolores realmente é? Bernardo, perdão por dizer, mas não gosto de nomes com a letra b — Atriz repete a história do que fez ao próprio nome.
— Deve estar presa por ser maluca. Vamos embora — diz Bernardo.
— Pois vão. Se a verdade lhes incomoda tanto e melhor partir.
— Verdade? Não sabe nada sobre nós!
— Pela maneira que se olham, sei que não são apaixonados um pelo outro. Outra coisa, a forma como dançaram, embora muito bonita, não foi verdadeira. Passos ensaiados, coreografia decorada, sorrisos falsos. Assim são as pessoas desse mundo. Elas decoram um modo de viver e repetem os passos a vida toda. Eu não gosto disso.
— Ora, não podemos sair por aí falando o que pensamos, agindo com imprudência. Se a vida for como o tango, isso é bom. Uma dança bonita, intensa. Quer saber, já nos enchemos de sua tagarelice! Passar bem, ou mal, tanto faz. Até logo.
— Até — Atriz acena da jaula.
Saem os dançarinos, entra o homem do primeiro ato.
— Precisamos nomear este sujeito. Se já aprece duas vezes, de certo é importante para a trama. Que acha de Hugo?
O homem de terno negro de riscas cinzas se chama Hugo. Ele se aproxima da jaula. Desesperado chacoalha a grade.
— Como a senhorita foi parar aí? Deus do céu, sua mãe vai me matar!
— Não se preocupe, Hugo, está tudo bem. De certa forma estamos todos presos. Amarrados às leis que nos rodeiam ou até mesmo a nossa genética. Por falar em genética, apesar de cada ser humano ser único, é uma mistura de dois outros anteriores que passaram suas características ao filho. Deste modo, é muito difícil para uma pessoa fazer algo que seus antepassados jamais fizeram. É óbvio que ela poderá fazer, mas não o fará bem feito ou nem terá vontade, vai saber.
— Pare, senhorita Atriz. Seus devaneios complicam ainda mais as coisas. Precisamos pensar em um modo de tirá-la daí.
— Pois eu mesma vou pensar em algo. Se não pensar, alguma coisa há de acontecer e me libertarei. Mesmo que nem uma nem outra coisa ocorram, tudo bem. Eu tenho esperança e isso me basta.   
— Se tivesse me acompanhado no início, tudo isso teria sido evitado.
— Não diga tolices! Tens um espelho? Pergunto por educação porque sei que tens.
— Aqui está — Hugo entrega um pequeno espelho circular à Atriz.
Ela encara o próprio rosto refletido. Os cabelos cacheados e longos, armados, os olhos negros, enfeitados por maquiagem exagerada, o nariz fino, os lábios grossos e rubros.
— Então esta sou eu. Bem, ao menos esta sou eu como me vejo no espelho. Como você me vê, Hugo?       
— Com os olhos, senhorita.
— Que asno — ri a menina. — Não digo com o quê, mas a maneira. O que observa?  
O jovem negro abaixa a cabeça. Responde:
— Não tenho os seus olhos...
— Tudo bem, uma pessoa não é igual a outra, de modo que não pode enxergar o mundo como eu. Sabe que esta história é minha tentativa de mostrar o meu mundo; as grandes questões que permeiam meus pensamentos.
— Sim, senhorita. Peço-lhe licença para encontrar alguém que possa libertá-la.
         — Vá