15 de abril de 2021

O Homem Cansado


Baltazar Salazar sempre estava cansado. Andar cansava; comer também. Respirar? Bem, sabia que não podia ficar sem, mas jurava que era cansativo fazer o ar entrar e sair do seu corpo. Não podia ficar dentro de uma vez? Qual seria a razão de entrar e sair sem permanecer? Só que pensar também era cansativo. Assim vivia ou melhor dizendo: se arrastava pela vida.

Certo dia, cambaleando por uma estrada conhecida por ele, caiu. Caiu e deixou-se ficar, pois dava trabalho se levantar. A noite veio, não estava muito frio, ele se ajeitou do melhor jeito e dormiu, mas não teve sonhos. Pela manhã, sentiu um dedo frio cutucar o seu ombro. 

— Ei, moço, tudo bem?

— Bem, bem não estou, só que estava melhor antes de acordar. 

— Desculpe-me. Observava o amanhecer, sentindo o orvalho das plantas com os pés, vendo a cor chegar lentamente às folhas. Ouvia a voz dos passarinhos quando te vi caído.

Baltazar se sentou. Coçou a cabeça cabeluda e se espreguiçou. Falou:

— Acordado, fico desanimado. Tudo é tão igual, não acha? O sol nasce na mesma posição e deita-se no mesmo lugar. Eu acho que nasci com algo a menos; como se um osso me estivesse faltando. Não sente o mesmo?

— Não acho que me falte alguma osso — a garotinha ajeitou os óculos escuros nos olhos e apalpou o corpinho — Não vejo problema no sol ter seu lugar de aparecer e desaparecer. As coisas estão onde deveriam estar, mas eu também sinto algo errado.

— Vou vivendo e cansando. Durmo, mas descanso pouco. O que tenho eu, ou melhor dizendo: que não tenho? Que vida é essa que não me empolga?

— Conheço um lugar…

— É longe? Eu fico cansado só de me imaginar caminhando…

— Não é longe para as pernas e eu posso te levar. Garanto que não se cansará para chegar até lá.

6 de abril de 2021

Retalho de gente



Suzi Nogueira adorava aquilo. Mexer com visual das pessoas, cuidar da aparência, mudar de qualquer forma. O seu salão de beleza no Centro da cidade era bem requisitado e rendia-lhe um bom sustento. Era uma mulher alta, ruiva de cabelos curtos e olhos verdes. Aparentava ter uns quarenta anos, usava uma echarpe verde em volta do pescoço e um vestido de verão, branco. Brincos extravagantes enfeitavam suas orelhas e botas negras cobriam os seus pés.

— O que vai querer dessa vez? — ela perguntou a Treze, enquanto abria sua maleta.

— O de sempre. Quero parecer normal.

Suzi sorriu. Conhecia Treze desde o começo. Tiveram um romance há quanto tempo? Seguiram caminhos diferentes. A cabeleireira havia superado tudo aquilo. Tinha criado uma vida para si; um nome, não mais um número. Suas habilidades que antes eram usadas para suavizar o processo de adaptação dos transplantados, agora serviam a todos os clientes.

As mãos ágeis da cabeleireira agarraram os longos cabelos dourados de Treze e começaram a cortar. Em seguida, deu volume e cachos. Por último pintou tudo de preto, num penteado moderno. De uma pequena caixa de plástico, tirou lentes de contato.

— Adeus olhos azuis.

Treze não gostava de se ver, embora tivesse que encarar o seu reflexo para conferir o trabalho de Suzi. Mudara tanto ao longo dos anos que não conseguia imaginar sua própria aparência. Não se importava com isso, aliás, mas a experiência tinha lhe ensinado que os outros se importavam. Não havia negros de olhos azuis, cabelos lisos e loiros e encontrar com Alanna Soares assim causaria resistência. Treze precisava de tudo para convencer a atriz do que estava acontecendo. Até mesmo, fingir ser o que não era.

— Ótimo — falou Suzi. — Ninguém vai perceber que você é um retalho de gente. 

17 de março de 2021

Fala que eu te escuto! ENE terá orelhas

 É isso aí. O meu mais recente livro "Extraordinário Novo Eu" terá orelhas! Olha só: 


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Tem até um trechinho da resenha que o escritor Paulo Uzai Jr. fez do livro, não é o máximo?

Abraços!

Paul Law 

19 de fevereiro de 2021

Favela Gótica de Fábio Shiva


Você é um bebezê, cheiroso ou zumbi? 

Favela Gótica do escritor Fábio Shiva foi lançado em 2019 pela editora Verlidelas e é uma história alucinante. Nele acontecimentos inusitados em uma realidade paralela peculiar misturados à atmosfera degradante levam o leitor a uma viagem inesperada e única. Nas 276 páginas do livro, acompanhamos a personagem Liana ou Lica e as consequências de sua dependência pela droga Z. 

A história começa com Liana acordando no barraco que divide com Samara, Galego, Mandrá e tio Biu já sentindo os efeitos da falta do tóxico. Logo surge a oportunidade para descolar algumas hóstias (o nome da cápsula de Z) com tio Biu que pede a ela para busca um tanto de maconha na boca do alto comando dos jacarés (que são jacarés mesmo!) para um playboy qualquer. A ideia era enganar o comprador da massa e usar toda a grana dele para comprar Z para todos do barraco. Contudo, o plano falha, na hora de voltar para o cafofo o playboy percebe o golpe e exige o seu dinheiro de volta. Há confusão, o sujeito morre e Samara se transforma em zumbi. Zumbi é a fase final da dependência de Z em que o usuário fica violento e devora cérebro humano. Liana foge do lugar e é aí que sua aventura começa de verdade. 

O texto de Shiva é sem frescura. Ao mesmo tempo que conta a história de Liana vai disponibilizando textos explicativos sobre a ambientação, chamados de "registros akáshicos. No final esses texto que parecem desconexos com a trama central se unem. Isso é bem criativo. Aliás, criatividade é a palavra que bem define o autor, já que seu mundo é formado por criaturas "não humanas" e eventos catastróficos que culminam numa aventura surpreendentes. Espere encontrar de quase tudo no que diz respeito a fantasia e ficção. Considere, também, não fazer ideia do que vai acontecer no capítulo seguinte. Isso é muito bom! 

Cada capítulo do livro é aberto com um desenho do autor e uma breve explicação do que encontraremos pela frente na leitura. Fique tranquilo, pois os resumos do que virá não são antecipações substanciais. São mais como um norte mesmo. Outro ponto positivo em "Favela Gótica" é o estado decadente do mundo da periferia. A divisão social que existe é bem nítida e a realidade paralela do livro não é tão distante da nossa nesse quesito. Favela continua sendo favela ainda que tenha jacarés e lobos. 

Resumindo: um livro autêntico com uma história envolvente e sem rodeias; de cunho social e fantasioso ao extremo. Com desenhos, explicações, acontecimentos e personagens  mirabolantes. Boa pedida para quem assim como eu gosta de originalidade. 

No fim ainda vamos saber do que o Z é feito.       

Fica a resenha e a dica.

Quer ler também? Compre aqui:

https://www.verlidelas.com/product-page/favela-g%C3%B3tica 

Abraço!