5 de julho de 2019

Benjamim e Vaidosa



Benjamim se senta em sua cadeira, mas outra princesa chega dançando. Ele a acompanha com a cabeça, enquanto ela se apresenta, meticulosa. É uma exímia dançarina, tem um corpo belo, as pernas fortes. Parece flutuar. A música termina e a bailarina faz uma reverência à plateia. Eles batem palmas. Ela pede mais palmas. A plateia a atende. 
— Bravo! — Benjamim também bate palmas, sentado. 
— Saudações. Sou Vaidosa, a mulher mais bonita do mundo. 
— De certo não é modesta. 
— Obviamente — ela pede mais uma salva de palmas, mas poucos correspondem ao pedido. 
— Venho informar que você terá a grande honra de ser meu esposo. Dentre os homens mais belos de todos os cantos da Terra, eu Princesa Vaidosa escolhi Benjamim para ser meu companheiro. É uma honra singular, percebe? 
— Não estou muito certo disso. 
— Ainda nem te contei a melhor parte, ouça. Tudo o que toco permanece belo para sempre! Se formarmos um casal, poderei dar um jeito nesse seu cabelo crespo, nessa sua cor. Talvez até na cadeira... 
— Agradecido, mas tenho um conceito diferente de beleza. Não me acho feio, posso adiantar. O belo para mim tem a ver com natureza. Tudo que existe sem interferência humana é bonito. Claro que o que o homem modifica também pode ser considerado bonito, vai de cada um, mas eu vejo tal beleza de forma artificial. Quando você mudar o meu cabelo, por exemplo, deixando-o liso, muitos julgarão bonito. Eles acostumaram a ver cabelos lisos por aí e pensam que é bonito por padrão. Só que é um engano, pois os cabelos crespos combinam perfeitamente com as cabeças que estão por baixo. O meu é perfeito! Veja que o nariz, a boca, os olhos, tudo está no seu devido lugar e se observado em conjunto notará a beleza de que falo. Ser único já é suficiente para ser belo. 
— Não tem vontade de ser considerado bonito pelas outras pessoas? De ouvir: ali vai Benjamim, o mais belo. Eu adoro ouvir elogios!
— Bobagem. 
— Não importa, ouviu bem minha proposta? Se não quer ser belo, eu entendo, mas não compreendo não desejar a esposa mais linda. Para falar a verdade, se não é e nem faz questão de ser bonito não me merece como companheira. Agora sou eu que não quero mais me casar com você. Passar bem!
Sai Vaidosa pela direita pisando alto. Duas das três princesas que ainda faltam se apresentar ficam apreensivas.

Paul Law, Mogi Guaçu, 20 de maio de 2019.

25 de junho de 2019

Crônica do Pássaro de Corda - Haruki Murakami




Um mundo oculto 

Haruki Murakami é um escritor japonês que mora dos Estados Unidos. Fortemente influenciado pela cultura ocidental,  tem um modo todo peculiar para escrever. Neste romance intitulado como Crônica do Pássaro de Corda ele deixa aflorar toda a sua capacidade imaginativa, criando um mundo (ou mundos) fantástico e intrigante.

A história começa com o desaparecimento do gato Noburu Wataya de Okada e Kumiko, um típico jovem casal japonês. Okada acabou de deixar o emprego de auxiliar num escritório de advocacia e ainda não encontrou uma nova profissão, ficando a sua cargo os afazeres domésticos. Kumiko é quem trabalha fora, numa revista. É dela a ideia de pedir ao marido que encontre o gato sumido, utilizando os serviços de uma detetive espiritual chamada Malta Kano. Como avançar da história, descobre-se que o sumiço do gato tem a ver com um problema mais complexo; que envolve outras pessoas e mundos. A esposa de Okada confessa traí-lo e deixa a residência, desaparecendo completamente. A vida de ambos corre perigo se Okada tentar reencontrar a esposa. É exatamente isso que o Pássaro de Cordas fará.

O livro de quase oitocentas páginas é um emaranhado de histórias sóbrias e pontuadas no tempo misturadas ao fantástico, sobrenatural. Não é clara a relação dos fatos, deixando ao leitor a tarefa de fazer relações. O conceito de "mundo dos espíritos" é fortemente explorado na obra. Um local sem tempo ou espaço acessível apenas pelos desenvolvidos espiritualmente. Coisas acontecidas neste além influenciam o mundo como conhecemos. O autor é criativo ao "dar vida" às personagens. Cada uma tem suas características peculiares; Creta Kano, por exemplo, é uma prostituta espiritual. Pessoas comuns e fantásticas perpassam pelos dias de Okada e o ajudam a descobrir o que verdadeiramente ocorreu com sua esposa e como ele poderá salvá-la. 

Bem, o próprio personagem principal tem seus problemas. Ele não tem renda, não tem perspectiva de vida e encontra-se no fundo do poço. Passa um tempo de verdade no fundo de um poço e é isto que o faz "ser iluminado" pela verdade. Ou parte dela; uma chama que o faz buscar tudo. É que Okada tem certa sensibilidade... No final, ficamos com a impressão de ter lido uma história longa, bem contada e não tão bem amarrada. O ponto positivo é que o desfecho não é o esperado, fugindo do clichê das histórias do gênero; aqueles em que o cavaleiro salva a donzela. 

Em suma, uma história não linear, fragmentada e longa, cujo final é original. Espaço, tempo e realidade são aspectos constantes em Crônicas do Pássaro de Corda, numa abrangência original e cativante. Fica a dica e a breve resenha, dado o tamanho da obra. 

Abraço.
Paul Law  

10 de junho de 2019

Fezesman - A cara do pai

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3 de junho de 2019

Espaço Pequeno



Que possamos fazer por merecer antes de pedir. O merecimento está nos olhos dos outros e quando ele estiver nos nosso, que não seja em relação a atos próprios. Reclamar também não é prudente; que o tempo gasto com o inconformismo seja dispendido com adaptação. Por último e mais importante, que o espaço que ocupamos no mundo seja pequeno, mas de ausência sentida. 


Paul Law, Mogi Guaçu, 03 de junho de 2019 

   

28 de maio de 2019

MOSTRA DE LITERATURA POPULAR ASSIS ODERAN

Ocorreu no final de semana passado, nos dias 25 e 26 de maio de 2019, a 2ª Mostra Literária Popular Assis Oderan. O evento foi realizado na Chácara Silvestre em São Bernardo do Campo e contou com a participação de vários artistas da região.

O Artista Plástico José Pereira de Souza, o Zep, é o organizador da Mostra Literária. Jamelão, criador do projeto Anjos da Rua e Inspirados aqui de Mogi Guaçu esteve presente e representou nossa cidade no evento cultural. Ele conferiu a obra de dois escritores guaçuanos na Mostra: Marcos Cunha e Paul Law.

Veja algumas imagens do evento:

Zep ao lado do poeta Assis Oderan, o artista que leva o nome da Mostra Literária
A apresentação do Grupo de Capoeira São Bernardo


Vários artistas participaram!

Ester, O Segredo da Lancheira e A Menina que Tinha Medo de Barata estavam lá

Os livros de Marcos Cunha

Zep e Jamelão expondo os nossos livros!

Sucesso!

Fica registrado o meu agradecimento ao Zep por acreditar em nós; por dar espaço e voz à Cultura do povo. Ao Jamelão por nos representar e sempre acreditar nos nossos meninos.

Fica o registro!
Abraço.       

17 de maio de 2019

Benjamim e Famosa



A música do começo do ato começa a tocar e Benjamim dança com as outras cinco princesas. Quando a música cessa, uma delas está nos braços do rapaz. É uma mulher ofegante, forte, magra, de cabelos louros, arrumados num coque tradicional. 
— Saudações, sou Princesa Famosa. Case-se comigo, Benjamim, e terá reconhecimento. Por todos os séculos se lembrarão do menino e sua cadeira; falarão o nome Benjamim em teatros do mundo todo. Esta peça receberá prêmios, você títulos. Que tal? 
— Devo admitir que você mexe comigo. Desde o momento em que entrou no palco, chamou minha atenção por causa dos seus olhos de ressaca tal qual Capitu de Machado — Benjamim, desvia os olhos do rosto de Famosa. — És perigosa, penso. O ego é terrível, minha cara princesa.
— Ora, vamos. Pense mais em si mesmo. Não acha que merece ser reconhecido? Que sua história é importante? Não é disso que se trata este grande espetáculo? Sei que sim, eu te conheço...
— Não duvido. Mas, veja, se eu fizer algo pensando em reconhecimento não estarei agindo com segundas intenções? Não foi Kant que ensinou às pessoas a evitarem a agir pensando num resultado? Uma ação é uma ação, não duas! Então, se eu ajudar alguém com a intenção de ser ajudado por esta pessoa numa outra ocasião não seria apenas uma ação? A ação de cobrar mais tarde. Eu seria uma péssima pessoa se minhas ações fossem assim, não acha? 
— Todos fazem isso. 
— Talvez, mas eu não quero ser como todos. Já não sou, não vê? Busco a liberdade; fazer o que tenho vontade. Penso que se eu não tiver vontade de ajudar alguém, não devo ajudar. Sei que parece horrível falar assim, mas é melhor deixar de agir do que agir com segundas intenções. É mais honesto. 
— Quem liga para o que é honesto, para o que é melhor? Cada qual se importa consigo mesmo. Os outros vão te admirar se fizer algo para eles, mesmo que cobre o favor depois. Além disso, quando estiver no topo, ninguém vai se lembrar dos seus defeitos! Não seja burro, Benjamim. Eu sei que você não é! 
— Sabes de mim, não nego. Admito que gosto de você, mas quero ouvir as outras pretendentes. 
— Eu vou, mas sempre estarei presente.

Paul Law, Mogi Guaçu, 22 de abril de 2019