17 de dezembro de 2018

O Maravilhoso Bistrô Francês - Nina George


Nunca é tarde para ser feliz

Se em "A Livraria Mágica de Paris" (resenha pode ser lida aqui) Nina George fala da magia da leitura em "O Maravilhoso Bistrô Francês ela explora o poder da pintura. Dessa vez temos um novo lugar, uma nova personagem e muitos sentimentos. O que é evidente nas duas obras da autora é o seu gosto por falar de Arte e de lugares incríveis. 

Tudo começa com Marianne, uma mulher de 60 anos, tentando cometer suicídio pulando da ponte do Rio Sena. O plano dá errado, ela é salva e levada ao hospital onde ficará em observação até a manhã seguinte, quando terá alta médica e voltara para a vida da qual tentou se desvincilhar. Durante a noite por estar faminta ela "rouba" alguns biscoitos das enfermeiras e acaba encontrado um pequeno quadro com a pintura do porto de Kerdruc. Então, ela tem a ideia de ir até o local para se matar. Apenas com o dinheiro do seguro recebido por causa do acidente na ponte ela parte para Kerdruc, deixando o marido e sua vida triste. Pega carona, caminha e acaba chegando ao local retratado no quadrinho, mas as coisas vão acontecendo e ela vai adiando o suicídio... 

Assim é "O Maravilhoso Bistrô Francês" que tem este nome por causa do lugar em que Marianne acaba arrumando emprego. Lá ela conhece pessoas incríveis como o chefe Jeanremy, a garçonete Laurine, a dona do restaurante Geneviéve, os beberrões Paul e Simon e muitos outros que transformam completamente a vida da personagem. Marianne redescobre o gosto pela vida, aprende a lidar com o sofrimento e amor, numa saga de muito aprendizado. Encontrar a felicidade tem ligação com encontrar-se a si mesmo. 

Nina George é muito eficiente trabalhando com sentimentos. Explora doenças terminais na dosagem certa, sem ser piegas ou superficial. Há verdade no que lemos. As personagens, por sua vez, também são autênticas, bastando mencionar que Marianne é uma senhora de sessenta anos, totalmente submissa ao marido que acidentalmente redescobre o gosto por viver. Não é incrível pensar uma personagem assim? De idade não convencional e de uma beleza que não se enxerga com os olhos. Obviamente que nem todos os personagens são aprofundados na trama, mas George fez questão de fechar todas as histórias.  

Ah, e tem um parte muito interessante no final do livro. Uma entrevista com a autora em que ela explica como se inspira e o que pensa da carreira de escritor. Fala de realizações e do privilégio de poder ser uma bruxa das letras.  

Uma obra que fala de feminismo, de velhice, de amor, de perda e de recontro; tudo acontecendo num dos lugares mais belos do planeta. Leitura recomendadíssima! 

Fica a resenha e a dica!
Abraço.              

7 de dezembro de 2018

UM BRINDE AOS ELFOS, RENAS E CRIANÇAS QUE NÃO GANHAM PRESENTES



Mary se ajeitou no sofá gasto depois de um cochilo. Coçou os olhos com as mãos trêmulas do Parkinson e se espreguiçou. Que horas eram? De certo o marido já tinha saído. As luzes da árvore de natal piscavam em vermelho, amarelo e verde, iluminando a pequena sala, cujo televisor se mantinha desligado, encostado na parede lateral. Já era mais de meia noite, observou no relógio de madeira circular no alto da parede, constatando que Nicolau já tinha partido como em todos os anos. Coitado, ainda tivera o trabalho de desligar a caixa de imagens antes de deixar a casa. Era dele pensar nos outros antes de si mesmo; era sua virtude lembrar de todos. Mary sorriu, ajeitando os pés calçados por meias brancas nas chinelas antigas. Levantou-se e arrastou os pés até a cozinha para tomar um copo de leite antes de dormir, afinal quando amanhecesse teria um grande dia. 
— Ah! Que susto! — disse Mary ao apertar o interruptor de luz — Que aconteceu? Alguma rena morreu? O trenó se quebrou? Os presentes não ficaram prontos? O Mundo se acabou enquanto eu cochilei?
— Nada disso — respondeu-lhe o velho barbudo, empurrando o copo para longe de si — Eu não quis sair esta noite. 
— Não quis sair? Eu estou com muito medo agora... 
Nicolau deu um rápido sorriso. Irônico, desesperador? Só Mary sabia. Sacudiu a cabeça em negação. Estava tudo errado, tudo! 
— Libertei os Elfos, soltei as renas. Como eu podia continuar dormindo em paz depois te tantos anos fazendo isso... 
— Está louco? As crianças estão esperando pelos presentes! 
— Elas vão se virar bem sem mim.  
Mary franziu o cenho por um momento. Pensou em responder, conteve-se. Puxou uma cadeira e se sentou. Há séculos o marido fazia aquilo e em nenhuma ocasião tinha se atrasado. Desistir? Esta possibilidade jamais fora aventada! Nicolau sempre lhe pareceu um velhinho feliz, de risada gostosa e otimista! O que o afligia? A esposa do Papai Noel não precisou perguntar. 
— No início achava que o que eu fazia era importante e correto. Dar presentes! Ora, quem não gosta de recebê-los? Mas os anos foram me mostrando que pouco faço de bom, Mary. Tomemos por exemplo os Elfos que trabalham na minha fábrica de brinquedos. Acha que eles recebem salário? Que trabalham apenas oito horas diárias? De forma alguma! Vamos às renas agora: elas cruzam os céus dos quatro cantos no Mundo em apenas uma noite sem parar para hidratação ou alimentação. Isto é maus-tratos com os animais! 
— Mas Nicolau, todos adoram o Natal. Os Elfos e as renas sabem disso e doam suas vidas para o bem maior que é entregar presentes a todas as crianças! 
— Vou te contar uma grande novidade e aí que vem a principal razão de eu desistir do meu trabalho. Têm muitas crianças no Mundo que não recebem presentes. 
— Não acredito. 
— Vai ouvindo. O trabalho que realizo é ínfimo se comparado ao número real de infantes viventes. Não é só! Há muitas pessoas que acham normal o fato de crianças ficarem sem nada, enquanto algumas ganham diversos presentes. 
— Meu Deus, isto é terrível! Onde está o Espírito Natalino nessas pessoas? 
— Descobri que o Natal é só uma desculpa para fomentar o comércio. Nós dois sabemos o segredo do comércio; que para o produto ser caro, precisa ser desejado. Para ser desejado, precisa ser raro e sendo para poucos é preciso que muitas crianças fiquem sem presentes!
— Eu não sei o que dizer, Nicolau. 
— Não diga. Pegue um copo e me ajude a esvaziar esta garrafa. Vamos brindar em honra dos Elfos, renas e das crianças que não ganham presentes.  

Paul Law, Mogi Guaçu, 07 de dezembro de 2018.

28 de novembro de 2018

O que define uma vassoura




Treze estacionou sua moto na garagem do condomínio em que residia na periferia da cidade. O local era ideal para alguém como ele que podia pagar adiantado em troca de discrição. Retirou o capacete, deixando visível os cabelos presos por um coque. Galgou os degraus do edifício sem elevador, abriu a porta carcomida de cupins e entrou. Jogou o capacete no chão de carpete, abaixou o zíper do macacão negro e colado ao pequeno corpo e se despiu. 
Observou algumas das suas tatuagens: textos escritos ao contrário; que só podiam ser lidos em frente ao espelho e fontes de informações sobre quem fora e o que podia fazer. Como seriam as próximas anotações invertidas? 
“Pense em um nome, já que não é mais um Coletor da Copas. Isto mesmo, você traiu aqueles que te criaram”. 
Por ora era apenas isto que Treze pensaria em registrar. 
Caminhou até o espelho grande que ocupava toda a parede da sala. Fitou o próprio rosto ainda estranho aos olhos. Não, aqueles olhos também não eram mais os seus. Aqueles olhos que se tornaram azuis, aquele nariz agora fino, levemente arrebitado, o queixo largo, as orelhas grandes que diminuíam de tamanho dia após dia. A cicatriz no meio do pescoço, aqueles lábios cada vez mais femininos, assim como a voz. 
Várias partes do grande espelho estavam preenchidas por frases escritas com pincel atômico. Quando se é o que Treze é, há a necessidade de anotar. Ela observou algumas anotações. Leu:
“Quem é você?”
“Tirando o cabo de uma vassoura, ela ainda será uma vassoura?”
“Onde fica a alma de um ser humano?”
“Ela ainda está aqui? Ela ainda está lá?”
Sempre dividido em dois, unido a outrem, um novo indivíduo. Somas e divisões que culminavam sempre em perda. Depois, o dolorido recomeço e quando as coisas finalmente entravam em harmonia vinha a ruptura mais uma vez. Era para ele ser perfeito, meticulosamente preparado para não cometer erros, por isso tantas vezes. 
Lembrou-se da ocasião em que dera um soco contra o espelho, os sinais ainda estavam no local. Na verdade, eram também registros importantes e serviam a mesma causa das anotações: defini-lo de alguma forma.  Deu as costas ao espelho e se sentou no sofá da sala. Agarrou algumas páginas que repousavam sobre a superfície e começou a estuda-las. 
O caso. Clara. Copas.

Paul Law, Mogi Guaçu, 04 de julho de 2018

13 de novembro de 2018

Ainda mais uma vez


O barulho do rádio chiando atraiu a atenção do motorista. Ele girou o botão para procurar uma nova estação, mas nenhuma parecia funcionar. As que sintonizavam, estavam exibindo “A Voz do Brasil” O programa falava da visita do Papa João Paulo II ao Brasil, marcada para o final do mês de junho. Seria a primeira visita do pontífice, mas Caio detestava religião. O jovem Promotor de Justiça acreditava em Deus, mas não na instituição Igreja; não nos padres e toda aquela ladainha de pecado. Girou no sentido anti-horário para procurar uma nova estação de rádio. Nada de novo. Pense, não faz sentido Deus se importar com as atitudes humanas. Tem que haver algo mais importante; que dure; seja intenso para valer a atenção de Deus. E outra se Deus é onisciente, sabe das limitações dos homens e concorda com elas. E para botar um fim na discussão, se Ele é bom, certamente não colocaria atravessadores no caminho daqueles que desejam se aproximar dele. Apesar de não ser pai, teve uma boa figura paterna com quem aprendeu que Deus era um pai. Simples assim: Deus é um pai que ama seu filho. Como todo ser que ama quer sempre o bem do amado. Sabe respeitar, se colocar no lugar dos outros. Só vai ajudar se o pedido for sincero.
Depois de desistir de encontrar uma estação que não estivesse exibindo o programa obrigatório, pegou no porta-luvas do Opala 76 uma caixinha de k7, impaciente. O som de freada brusca, tirou Caio dos devaneios relacionados ao rádio e religião. Levantou os olhos e focalizou o Chevette negro parado a frente. Pisou no freio com toda a força do mundo, rezando para que desse tempo de parar o automóvel antes da colisão. Os pneus travaram e seu carro derrapou um pouco, perdendo a traseira, mas não o suficiente para tirá-lo da pista. Parou muito próximo do veículo atravessado na marginal, ouvindo parte de uma notícia qualquer na rádio sintonizada. A fumaça da frenagem brusca foi se dissipando enquanto Caio entendia o que se passava. Levou a mão ao coldre embaixo do braço esquerdo, mas era tarde demais.        
A rajada de disparos contra o carro de Caio foi observada da calçada por Aida. Ela pensava no triste destino do jovem Promotor que estava tão próximo de desmantelar um esquema municipal de desvio de dinheiro público. Um daqueles que parecem uma linha solta de uma camisa. Você vai puxando a linha, desfazendo a costura e estragando a roupa toda. Quando mais a linha fosse puxada mais pessoas seriam descobertas, mais esquemas e regiões envolvidas.
Alguém cortou a linha. Não era a primeira vez, não seria a última.
Apenas em algumas ocasiões Caio tem uma vida longa que termina em uma cama quente rodeada de bons amigos e parentes. Na maioria das vezes, morre jovem por causa de algum envolvimento político ou jurídico. Ele tenta evitar, mas está em seu DNA, está em sua alma, chame do que preferir, se importar; se envolver e ser silenciado. Aida já o viu nesta situação inúmeras vezes. Ele não aprende? O que o motiva a ser tão tolo?
O carro dos bandidos sai acelerado, o do Promotor, imóvel. 
Aida puxa o anel do anelar esquerdo, desaparece. 
Ela retorna ao Oito, gosta de imaginar que é manhã, embora sempre seja meio-dia. Em frente há uma mesa de madeira que precisa ser envernizada, cuja superfície está cheia de anéis dourados ou prateados. Sobre eles há um homem. Um homem velho, miúdo e careca, de óculos com lentes grossas. Ao notá-la, ele ergue o rosto e retira os óculos. As chamas das velas que iluminam o local tremulam.
— Como foi dessa vez?
Aida coloca o anel em cima da mesa. Diz:
— Assassinato.
O velho sorri. Ele pinça com delicadeza a joia deixada por Aida.
— Cada um deles é único. Há trilhões, todos diferentes, você sabe. Além disso, podem alterar seus futuros por escolhas! Não é belíssimo?
— De fato, mas não consigo compreender certas escolhas. 
— É por isso que os estudamos! Eu lustro, dou brilho mantenho todos guardados e vocês usam — Bento devolve a joia com cuidado à mesa.
— Descansarei por enquanto, mas logo volto para pegar o anel para nova tentativa. 
— Ele estará como novo quando voltar. 
— Agradecida.

Paul Law, Mogi Guaçu, 1 de novembro de 2018. 

7 de novembro de 2018

Fezesman - O que espero do presidente

clique na tirinha para aumentá-la

31 de outubro de 2018

A Terra Inteira e o Céu Infinito de Ruth Ozeki


Extraordinária viagem 

Sabe aquele livro que tem um modo especial de contar? Um jeito todo único de prender o leitor e fazê-lo torcer pelos personagens? Pois é! Este é o caso de "A Terra Inteira e o Céu Infinito" de Ruth Ozeki. Uma obra que conta a história de uma escritora que achou um diário de uma adolescente japonesa. O artefato chegou até sua ilha juntamente de outros objetos pelas ondas do mar. Sim, Ruth nossa escritora encontra um pacote sobre as areias da praia. Ao abri-lo encontra um diário disfarçado de livro, um relógio antigo e cartas escritas em francês.

No entanto, o livro não começa com Ruth. O leitor primeiro conhece o que está escrito nas primeiras páginas do diário de Naoko. Ela se apresenta, conta de onde está escrevendo e como imagina o leitor. Apesar de escrever um diário sua ideia é deixá-lo em algum lugar para que seja encontrado por alguém. Ela pretende fazer isso antes de se matar. Ao ler as primeiras páginas do diário Ruth se afeiçoa a Nao. Fica preocupada e pensando se ela teria mesmo cometido suicídio. Vai lendo aos poucos o diário, conhecendo a rotina de Nao, seus problemas e ideias ao mesmo tempo em que reflete sobre sua própria vida e objetivos. Pessoas tão diferentes e em tempo e espaço diverso podem ter muito mais em comum do que se imagina. 

Assim é "A Terra Inteira e o Céu Infinito". Um livro que conta duas histórias simultâneas, diversas, mas que se ligam de uma maneira inusitada. Ruth autora faz de Ruth personagem o seu "avatar" na história, dando aquele toque de realidade à trama. Nao e sua família, por sua vez, vivem no Japão do século XXI e são retratados coerentemente. Nós ocidentais podemos nos espantar com o modo de vida dos japoneses, mas isso é incrível! A questão do suicídio é muito explorada na obra. Os motivos que levam uma adolescente a pensar em tirar a própria vida, os exemplos de pessoas próximas que já fizeram isso. O leitor atento poderá até dar razão aos motivos de Nao. 

Conforme a história avança nos dois núcleos mais personagens são agregados e suas histórias desenvolvidas. A velha Jiko, uma monja centenária avó de Nao; Haruki nº1, piloto kamikaze da Segunda Guerra Mundial. Por falar em eventos históricos, Ruth tem a habilidade de perpassar por grandes marcos históricos com leveza e humanidade. Retrata passagem da Segunda Guerra, do Tsunami e do 11 de Setembro. O quanto esses eventos impactam a vida das pessoas?

Ah e tem Filosofia, Física Quântica e Budismo! 

Em resumo uma obra eclética, humana, sensacional. Um livro que mostra as diversas facetas do ser humano, seu sofrimento e limitações sem perder de vista suas qualidades. Tudo pode mudar a qualquer momento e podemos tomar uma decisão diferente. Somos inconstantes, mas isso não é ruim. Ruth Ozeki nos ensina com muita leveza e perícia. Eu só fiquei um pouco chateado com o final porque esperava que algo óbvio fosse ocorrer, mas não ocorreu. Não precisava mesmo, mas seria interessante... 

Leia o livro e saberá do que estou falando. Fica a dica e a resenha!
Abraço
Paul Law              


24 de outubro de 2018

Definida capa de Ester edição especial de 10 anos

A artista Camila Araújo concebeu a arte especial para a capa da edição comemorativa de dez anos do meu primeiro livro Ester. Olha só:


Não é o máximo? A edição especial será lançada em 2019 e terá muita coisa bacana, mas vou revelando aos poucos, ok?
Abraço!

18 de outubro de 2018

O Policial Estelar




O Policial Estelar

A luz parecia distante. Também aquele horário; aquela noite... Vilma balançou a cabeça, tentando resgatar um pouco de sobriedade dos confins da alma. Não é tão difícil, disse a si mesma. Basta um passo de cada vez e a soma de todos a levaria para casa. Observou mais uma vez a luz. Ela ainda continuava distante, imóvel, tranquila. Deu o primeiro passo, o pé vacilante, o salto irregular. Na segunda passada, torceu o pé, mas conseguiu se equilibra a tempo de evitar a queda. Sorriu, vitoriosa por ainda se sentir senhora de suas pernas. Não estava tão bêbada afinal de contas. 
A convicção, no entanto, durou pouco. A luz forte atingiu seus olhos subitamente. O som da buzina, do arrastar dos pneus. Levou a mão na frente do rosto instintivamente. Que fosse rápido, indolor. 
Quando abriu os olhos não acreditou no que viu. A iluminação do poste reluzia nos braços do ser que a abraçava. Mãos frias, fortes de ferro? Vilma não tinha certeza, mas o sujeito parecia ser feito de metal, sua cabeça lisa como um capacete de motoqueiro. Os olhos dento de uma faixa negra, duas pedras vermelhas brilhantes. Ele a soltou e disse algo numa língua que ela não pôde compreender. 
Vilma reparou melhor no seu salvador: era um robô. Não, um *metal hero desses seriados japoneses. Definitivamente tinha exagerado nas drogas e bebidas. 
— Pronto, ajustei suas ondas cerebrais para entender minha língua. 
— Quem ou o que é você? 
— Sou um Policial Estelar. Estava perseguindo um criminoso procurado em toda Via Láctea, quando vi a nave dele aterrissar neste planeta. Assim que atravessei atmosfera os medidores da minha nave entraram em pane e perdi meu alvo. Estacionei a nave sobre esta cidade que foi o último lugar que o localizador me mostrava, liguei o modo camuflagem e desci para procurar.
Estava sonhando, deduziu Vilma. Era plausível que estivesse ainda debruçada sobre a mesa metálica da boate, esperando o fim do expediente. Já exausta do trabalho e entorpecida pelas substâncias que a ajudavam a não pensar no que fazia. Ia passar, sabia. Sempre passa e sempre volta. É assim desde que o mundo é mundo. Continuará sendo depois que ela se for. Espere aí! E se ele estiver indo? Se foi atropelada e aquilo fosse o coma? De todo modo também ia passar. Abaixou-se, levou a mão os joelhos e vomitou. Pareceu bem real o líquido quente escorrer pelo seu queixo, a contração do estômago e o ardume da garganta. Reparou que os sapatos metálicos do tal policial do espaço se sujaram com o seu vômito. 
— Desculpe — ela disse. 
— Não se preocupe. Examinei suas funções vitais e deduzi que sua armadura expeliu líquidos que estavam lhe causando mal. É uma função útil. 
— Armadura é? 
— A minha é esta, a T5.600, produzida em L23 para a Polícia Estelar. Ela vem com uma pistola a uma espada de laser. Tem visores telescópios ligados ao banco de dados da Polícia Estelar e aumento de força em 50%. Antes de ser promovido eu tinha uma T4.000 que não tinha espada nem nave que se transforma em robô de combate. 
— Você tem uma nave vira um robô gigante?
— Como todos os Patrulheiros da Polícia Estelar. Como vamos defender os planetas dos monstros gigantes?
Aquilo não podia estar acontecendo, pensou Vilma. Não fazia sentido. A mão metálica do homem espacial repousou em seu ombro. Ele falou: 
— Notou alguém suspeito?
A prostituta gesticulou negativamente, ainda confusa. 
— Ok, vou continuar procurando — o policial afastou a mão do ombro pálido de Vilma, os olhos vermelhos se apagaram do visor horizontal de seu capacete. 
— Procure ajuda médica — finalizou.
Entretanto antes que pudesse deixar o local uma esfera de energia perpassou por ele rumando na direção de Vilma. O homem espacial ágil rápido e se jogou sobre o projétil esférico, usando o próprio corpo de escudo. Uma explosão de faíscas se fez para depois dar lugar ao riso de um vilão. 
— Continua o tolo de sempre, Uper — falou o dono da risada, outro metal hero, pensou Vilma. 
Era um sujeito robótico, tal qual o primeiro, diferenciando-se nos detalhes e cor da vestimenta. Este segundo tinha a armadura negra e o visor acendia em dourado. Já de espada e pistola em punho, aguardava o outro se levantar. 
— Não é tolice proteger inocentes, Mac. Era o que você fazia... — Uper se ergueu.
— Está errado. Sempre defendi o que acho certo. 
— Devíamos estar do mesmo lado! 
Um correu em direção ao outro de espada na mão. O barulho dos sabres luminosos em atrito lembrava Star Wars, pensou Vilma. Que doideira! Ela queria se afastar, mas o show luminoso parecia atraí-la ainda mais, como uma mariposa indo em direção à lâmpada mortal. Os movimentos precisos de ambos os combatentes eram incríveis.
Armaduras, como eram aqueles dois seres sem suas vestes de combate? Assemelhar-se-iam aos humanos? Com ela? Poderiam ser mulheres pobres que se dedicaram aos estudos e galgaram cargos até se tornarem membros importantes da Polícia Estelar? Vilma imaginou que sim. Imaginou que Uper era uma ingênua e inteligente garota do interior que ingressou na Polícia através de um disputado concurso público e se dedicou para ser um exemplo dentro da Corporação, vindo a alcançar uma boa patente recentemente. Tinha caráter, valores aprendidos com os pais e não se curvava à corrupção de qualquer natureza. Um pouco sozinha, verdade, mas de bem com o travesseiro (se é que no espaço se usa travesseiro para dormir). 
Vilma imaginou que Mac era Uper no futuro, depois de perder as esperanças e perceber que as pessoas são essencialmente más, sendo tolice tentar mudá-las. É muita ingenuidade acreditar que é possível salvar alguém; que atitudes isoladas podem mudar o mundo (já pensou a Via Láctea?) Era mais prático assumir sua natureza e viver sem culpa por agir conforme os instintos. Não é errado querer o melhor para si, não é? Não se pode julgar aqueles que fazem a justiça pela qual sonhavam e não tiveram chance de desfrutar. Elas deviam ser amigas. Mac foi um ídolo para Uper por isso a missão era tão especial. Como eram sem armadura?
A espada de Uper cortou o ar perigosamente próxima ao capacete de Mac. Mac se afastou, surpreso. Sacou a pistola e disparou outra esfera de energia, mas dessa vez seu adversário se esquivou habilmente. Quando Uper sacou sua arma e disparou contra Mac, este fez nascer um escudo de energia do antebraço direito que o protegeu com eficiência. 
— Se eu ainda fosse seu professor, estaria orgulhoso — falou Mac, acendendo seu sabre dourado. 
— Sinto-me honrado — o sabre vermelho de Uper se acendeu. 
Os dois começaram a trocar espadadas mais uma vez. Em dado momento as armas se encostaram sem que qualquer um dos combatentes pudesse forçar o outro a se desvencilhar e faíscas em vermelho e dourado iluminaram a rua. 
Vima ainda tinha os olhos fixos naqueles dois seres metálicos. Quanta energia ainda tinham? Pensou que a tal T5.600 fosse movida a energia atômica como um pequeno reator nuclear. Se danificada poderia explodir todo a Terra. O mesmo poderia ocorrer com a armadura negra do vilão Mac que, embora tivesse um visual diferente, parecia ter o mesmo princípio de funcionamento. Aqueles dois alienígenas iriam destruir o planeta enquanto lutavam?
Um barulho diferente, a precisa espada de Uper perpassou pela mão direita de Mac, decepando-a instantaneamente. O sabre reluzente do vilão espacial rodopiou no céu escuro para depois descansar no solo da calçada. Uma chuva de faísca dourada invadiu o ambiente até que Mac pudesse conter as faíscas com a outra mão. O vilão deu dois passos para trás, observando os olhos vermelhos de Uper brilharem em seu capacete. A espada do policial estelar aumentou de tamanho e brilho enquanto avançava na direção do inimigo. O golpe em diagonal foi preciso. Uma, duas vezes, formando um xis. Mac gritou e caiu em câmara lenta. De bruços sobre o chão, o vilão explodiu. 
Não, as armaduras não explodiam como uma bomba atômica, deduziu Vilma ao se aproximar do herói espacial. Pelo contrário, se desintegravam completamente após a explosão. A mão decepada de Mac repousava ao lado, assim como seu sabre agora desenergizado. 
— Descanse em paz, mestre — disse Uper. 
Era o famoso clichê cinematográfico do pupilo que assassina o seu mestre que mudou de lado, pensou Vilma. Estaria Uper destinado a viver o suficiente para se tornar também um vilão? Que teria feito Mac para ser caçado pela Polícia Estelar? Tantas perguntas, mas a terráquea sabia que o homem espacial não as responderia; não tinha mais nada para fazer ali. 
— Minha missão foi cumprida, adeus!
— Espere! Eu não posso ver o seu rosto?
O policial guardou a espada na bainha lateral. Virou de costas depois assentiu. O som de ventoinha de PC se fez pouco antes do capacete metálico soltar uma fumaça e ser desacoplado do pescoço de Uper. Ele então se virou para Vilma e revelou o seu rosto totalmente humano. Os olhos castanhos, o nariz fino e as bochechas rosadas, lisas. A franja castanha escorria pelos cantos da cabeça e iam até os ombros, as orelhas não tinham brincos.
— É uma mulher? 
Uper sorriu e pensou na verdadeira resposta: para Vilma ele era. O cérebro da terráquea ainda alterado para que ela pudesse lhe entender queria que visse uma mulher, alguém que lhe servisse de inspiração e exemplo. Respondeu:
— Sim, igual a você. Agora tenho que ir, adeus! 
O corpo do policial começou a tremular para em seguida tornar-se um raio de luz e subir ao céu em velocidade. Vima ainda ficou olhado para o alto tentando identificar a nave robô ou alguma coisa estranha, mas não pôde ver nada. Esfregou os olhos manchados de maquiagem ainda na esperança de ver alguma coisa, mas inútil. Suspirou, desistiu, sentou-se na calçada e pensou na própria vida insignificante. Era uma nordestina jovem que havia se mudado recentemente para a capital de São Paulo no intuito de ganhar a vida. Muitos sonhos, poucas chances e um vício a levaram a um caminho tortuoso e degradante. Sabe quando você precisa trocar o encanamento de esgoto de uma casa antiga? Vai cavando, vai sentindo a terra úmida, enegrecendo, barrenta e fedida. Quando está perto do vazamento você se atola no barro e desejos humanos e o buraco é muito fundo para que possa sair sozinho. Esta era a condição de Vilma quando foi salva pelo Policial Estelar. 
Tinha mesmo sido salva? 
Não importava. Tinha que voltar para o cortiço e descansar para a noite seguinte. Levantou-se, abaixou a saia curta para cobrir um pouco mais as coxas. Puxou a mine-blusa negra. Então identificou algo: a espada de Mac. Aproximou-se do objeto, abaixou-se e o tocou com o dedo indicador. Nada de choque. Pegou a arma com cuidado e a levantou, constatando que era extremamente leve. Não brilhava mais, mas não importava. Era real! Era sua! Sua chance de também ser uma Policial Estelar. 

Paul Law, Mogi Guaçu 16 de outubro de 2018. 

*Metal Hero - heróis de armaduras metálicas, geralmente policiais ou detetives espaciais que combatem uma organização criminosa espacial. Termo originalmente criado para definir uma franquia de super-heróis japoneses.   

10 de outubro de 2018

O último capítulo de V de Verônica


"No fundo acho que o que define um herói não são os superpoderes. Nem mesmo atitudes benevolentes ou sacrifícios pessoais em prol de outrem. Isto tudo são características que podem ser encontradas em qualquer pessoa. Ok, os poderes, talvez não, mas o universo é grande o bastante, de modo que eu não ficaria surpresa se existissem criaturas extraordinárias por aí. O que realmente define um herói, ao meu ver, é a capacidade de não se conformar." - trecho do capítulo 15 de V de Verônica.

Então é isso, meus amigos. O último capítulo de V de Verônica acaba de ser publicado oficialmente nas duas plataformas de leitura adotadas desde o início. Como anunciado, a história deixará de ser gratuita daqui a quinze dias, então aproveite para ler, ok?

O 15º capítulo de "V de Verônica" acaba de ser publicado no Wattpad, confira os link:


O índice pode ser acessado aqui.

O livro completo no Issuu:


Foi uma honra escrever para vocês. Grande abraço e até a próxima!
Paul Law

5 de outubro de 2018

Recebi o Troféu Arte em Movimento


Dia 29 de setembro de 2018 ocorreu aqui em Mogi Guaçu a entrega do troféu Arte em Movimento. O troféu é entregue no Brasil todo e até fora dele com o objetivo principal valorizar as diversas formas de Arte. O Zep, criador do Troféu Arte em Movimento, disse que a premiação é um incentivo aos artistas esquecidos pela grande mídia. Um modo muito legal de valorizar os fomentadores culturais que fazem sua parte sem se preocuparem com o reconhecimento.

Neste ponto se encaixa o homem que trouxe a premiação a nossa cidade: Jamelão, o idealizador do Projeto Cultural Anjos da Rua e membro do grupo de rap Inspirados Rap Nacional. O Jamelão é uma dessas pessoas nobres que fazem muito pelos outros sem esperar nada em troca e eu sou fã dele. Fã do grupo de rap que ele montou, os Inspirados. Então, ser indicado por ele para receber o troféu foi incrível.

Recebi o meu troféu Arte em Movimento que este ano homenageou a nossa escritora Maria Ignez Pereira. Veja algumas imagens:

Zep, Jamelão e Marcos Cunha

Inspirados dando show!

Mírian, Rosely Rodrigues e Marcos Cunha


Dona Maria Ignez a grande homenageada!


Eu e Marcos Cunha, parceria sempre!

Maria Ignez agradecendo

Não foi o máximo? As fotografias são do meu amigo Marcos Cunha, exceto a primeira que é oficial do evento. Fica registrado o meu agradecimento e o quanto me senti honrado por ter sido lembrado. Como diz o meu amigo e idealizador de outro troféu importante, o Formiga de Ouro, Poeta Camilo Martins, é um trabalho de formiguinha, mas gratificante.

Abraço!     

2 de outubro de 2018

O Menino-Espelho



Nasceu assim, espelho, o menino. Recebeu muito amor de seus pais e como era espelho acabou refletindo o que recebeu. Reflexo daqueles que o observavam, tornou-se bobo quando lhe disseram quem era bobo; depois, virou triste. Triste, muito triste foi notando que os iguais se juntam e os separados continuam sendo o que são. Tornou-se homem feito; um homem-ainda-espelho. Já não era triste porque a tristeza é sentimento de quem não entende o que deve ser feito. Era agora furioso e precisava fazer alguma coisa. Fez. De espelho passou a ser o refletido e começou a ver nos outros pessoas-espelho, tentando de todo jeito refletir nelas aquilo que era.

Se tivesse conhecido pessoas boas no início...



Paul Law, Mogi Guaçu, 02 de setembro de 2018.

27 de setembro de 2018

Penúltimo capítulo de V de Verônica está no ar!



Para mudar o mundo não é preciso ser alguém famoso, ou ter um cargo importante, eu li algo assim uma vez, mas nunca havia dado crédito. O mundo aqui é tão pequeno, de modo que é difícil acreditar que alguma coisa possa ser feita, e se for, notada. Estamos num pedacinho esquecido que possui regras singulares; talvez até a gravidade seja diferente. As coisas demorem mais a cair por aqui. 
Têm-se ruas, lojas, calor e um grande rio que, é preciso que se diga, pelo menos por ora, supre a necessidade dos moradores. Um povo focado em seus afazeres cotidianos e alheio às grandes causas da humanidade. Temos policiais, bombeiros, secretarias, mas o asfaltamento das avenidas é assunto para vários dias enquanto o que acontece nos bairros mais afastados é ignorado. A Cultura, já ouvi muitas reclamações, não é prioridade, assim como a Educação. Entretanto, sei da culpa dos próprios moradores que apontam erros, mas não estão dispostos a solucioná-los. Percebo que a noção de espaço que temos será sempre equivocada, por menor que seja o tamanho de nossa cidade. No final, vamos ver o que queremos: a nós mesmos. Não é esse o caminho que quero para mim, foi pensando assim que arruinei minha vida - trecho do capítulo 14.  

O 14º capítulo de "V de Verônica" acaba de ser publicado no Wattpad, confira os link:


O índice pode ser acessado aqui.

O livro no Issuu:
Boa leitura!

24 de setembro de 2018

A Sabedoria da Transformação - Monja Coen



Gotas de vivências e ensinamentos

Monja Coen é personagem recorrente quando o assunto é espiritual, moral ou filosófico. Palestrante conhecida em todo o nosso país por conta da sua capacidade de falar o difícil com palavras fáceis, usa o Budismo como chave para abrira a porta da felicidade. Neste livro intitulado de "A Sabedoria da Transformação" Coen sintetiza os seus ensinamentos utilizando histórias orientais antigas, suas próprias vivências e conselhos que recebeu ao longo dos seus anos monásticos. 

Tematicamente variados, os capítulos possuem padrão: primeiro vem a história antiga; depois a conclusão da monja sobre ela; em seguida uma história atual sobre o mesmo tema, geralmente alguma experiência pessoal; por fim a reflexão sobre esta história atual que fecha um ensinamento completo. Não há problema na amarração, mas pode cansar os espíritos mais ávidos por surpresa. 

A riqueza do Budismo é bem retratada por Coen que tem conhecimento de causa; mostra-se informada sobre a religião antiga e seus principais fundamentos. Retrata com perfeição a busca do ser por Iluminação e Equilíbrio com a Natureza; a vida pedante do monge que em muitos casos depende exclusivamente da caridade alheia para se alimentar, mas que detém grande sabedoria espiritual, disposto a compartilhar com os inclinados a ouvi-lo. É uma cultura toda estranha a nós, mas não por isso desinteressante ou pobre. Pelo contrário, pode-se aprender muito sobre caridade e empatia. 

É claro que as palavras são bonitas e trabalhadas pera serem compreendidas pela maioria das pessoas, o que é bom. Plantar boas coisas sempre é louvável, mesmo que, posteriormente, cobre-se pela colheita, o que, admito, não sei se é o caso, mas minha ignorância interiorana não consegue harmonizar o pensamento monástico com grandes empresas e palestras vultuosas.   

Em suma, A Sabedoria da Transformação é um livro interessante sobretudo por explorar uma cultura alheia a nossa; passar bons conselhos. Simples e bem escrito, mas desconexo com a realidade. 

Fica a breve resenha e a dica.
Abraço!    

18 de setembro de 2018

Fezesman - não voto em lixo


10 de setembro de 2018

O capítulo 13 de V de Verônica está no ar!



Mais um capítulo do livro V de Verônica foi adicionado ao Wattpad e ao Issuu para a leitura. A história se aproxima do fim, assim como a possibilidade de lê-la de graça. Confira o link do capítulo:


O índice pode ser visto aqui.

O livro no Issuu:



Abraço!

29 de agosto de 2018

Fezesman - Promessa de candidato


23 de agosto de 2018

12º capítulo de V de Verônica está no ar!


O conto "V de Verônica" possui quinze capítulos. Desses quinze, doze já estão disponíveis para a leitura no Wattpad e Issuss. Confira o link do décimo segundo capítulo:


O índice pode ser acessado aqui.

O livro no Issuu:

Lembrando aos amigos leitores que a leitura do conto permanecerá gratuita até a postagem do último capítulo. Quinze dias após a postagem do capítulo quinze V de Verônica será retirado do ar. Então aproveite a oportunidade de ler o livro todo!

Abração!
Paul Law

10 de agosto de 2018

Décimo primeiro capítulo de V de Verônica já pode ser lido


O capítulo 11 de "V de Verônica acaba de ser publicado. Este capítulo é considerado o climax da história; o ponto em que partes importantes da trama são esclarecidas. A origem da heroína é revelada aqui. Veja no link:


Aqui você pode acessar o índice do livro.

A obra no Issuu
Até a próxima publicação!

31 de julho de 2018

Os Miseráveis - Victor Hugo



Ser bom não é fácil

Os Miseráveis de Victor Hugo é considerado um marco na Literatura universal. Publicado originalmente em abril de 1862, a obra retrata o cenário político e social da França no período entre duas batalhas do século XIX, a Gerra de Waterloo e os conflitos contra o regime absolutista de Carlos X ocorridos em junho de 1832 . Não é só: trata-se de um relato coerente da alma humana.

A história é dividida em cinco volumes, cujos títulos possuem nomes de personagens importantes da trama. Embora cada volume seja nomeado com o próprio nome de um personagem, todos destacam a figura de Jeam Valjean  e seu conflito moral. A narrativa começa com a saída de Valjean  da cadeia após cumprir muitos anos de reclusão por ter furtado alimentos e dá-los a família. Marcado por sua condição de ex-presidiário, Jean não tem vida fácil fora da cadeia, chegando a passar necessidades. Tudo muda quando recebe auxílio de um benevolente religioso chamado  Bispo Myriel a quem retribui furtando-lhe utensílios de prata. Pego pelo inspetor Javert e levado de volta a casa do bondoso padre este informa que a Polícia cometeu um equivoco. O Bispo mentiu dizendo que dera os utensílios a Valjean  e que ele havia esquecido de levar alguns outros. A história avança no tempo e focaliza em Fantine, a pessoa que nomeia o volume.Trata-se de uma jovem parisiense ludibriada por um sujeito que a abandona grávida. Abandonada por todos, Fantine decide entregar sua bebê batizada de Cosette para uma família de taberneiros com a promessa de mandar dinheiro para sustentá-la. A jovem procede como prometera, trabalhando incessantemente nas empresas de pai Madeleine (identidade falsa de Jean Valjean ), perdendo sua beleza e dignidade em troca de dinheiro.

Mostrando as várias faces morais dos homens Hugo avança em "Os Miseráveis", presenteando o leitor com uma trama complexa e bem amarrada que perpassa por pobrezas, guerras e heroísmos individuais ou coletivos, culminando numa existência dura, difícil e cansativa. Como anunciado no título desta resenha Jean Valjean  e outros descobrem que ser bom não é fácil. Além disso ninguém acredita na bondade. Um relato coerente da alma humana ; de suas limitações e transformações ao conforme a ocasião. 

O conflito moral de Javert o tal policial que tem obsessão por prender Valjean  é muito interessante. Tirando dele suas convicções o que sobraria? O que faz um homem se tirarem dele seus princípios? Pode alguém mudar? Seria Jean um bandido ou alguém que jamais deveria ter sido preso? O próprio ex-presidiário questionou-se sobre sua índole, mas o exemplo do senhor Bienvenue o fez trilhar por caminhos benevolentes, mesmo que lhe parecessem mais árduos. 

Em suma, uma obra-prima da Literatura mundial, cujos ensinamentos, embora antigos continuam atuais. O homem não muda. 

Fica a breve resenha e a dica.
Abraço.                 

26 de julho de 2018

Já temos dez capítulos de V de Verônica publicados


Isso mesmo, amigo leitor. Acabo de publicar o décimo capítulo do e-book "V de Verônica". As plataformas de leitura continuam as mesmas, veja:




O livro no Issuu:


Até a próxima postagem!
Abraço. 

20 de julho de 2018

Codinome B


Ele me abraça com desejo, embriagado pelo cheiro do meu perfume. Minha pele exposta, frágil como nunca deixo acontecer. Ele não sabe, ninguém sabe o que arrisco naquele momento. O meu rosto, quando o vi pela última vez? Se as luzes estivessem acesas eu poderia vê-lo de novo. O homem beija os meus lábios com intensidade, sinto o cheiro de bebida e cigarro. 

Já chega. 

Eu só preciso deixar de pensar para que o que há em mim extravase. Não posso sentir o sangue que deixa aquele corpo flácido agora perfurado por minhas lanças sobrenaturais. Rápido como se mil facas o atravessassem com a velocidade de projéteis de arma de fogo. Letal sim, indolor? Não sei, tomara que não. O seu corpo como papel de seda está fragmentado sobre mim; sobre o que sou de verdade. Acho que a armadura gosta de ser banhada em sangue. É como lubrificante para ela. Os pedaços de pele, carne e outros dejetos humanos continuam sobre mim, sobre a cama. 

É a primeira vez que mato um político. É a primeira vez que mato desse jeito, fingindo ser uma mulher. Bem, eu era uma, mas as coisas mudaram depois que entreguei minha alma ao demônio. Não foi tão ruim assim. Eu me sento, pedaços caem no chão. Levanto-me, estou totalmente coberta pela armadura; sou uma guerreira que não pode ser atingida por lâminas ou disparos de arma de fogo. Aproximo-me da porta, destranco-a, deixo o quarto e caminho até a saída do motel luxuoso. Seguranças se colocam no meu caminho, mas ao me observarem, ficam apavorados. Eu não os culpo, também fiquei quando vi a armadura pela primeira vez. Um deles dispara contra mim. O projétil ricocheteia em meu elmo escurecido. Ele se afasta. Devo matá-lo? É prudente acabar com todos aqueles que defendem o meu alvo principal? Tiririca, por menor que seja comparada à plantação, pode proliferar e dominar todo o solo, sobrepujando plantas boas. 

Posiciono-me como se houvesse um arco-e-flecha em minhas mãos. O metal mágico que cobre o meu corpo se expande para cima e para baixo, formando o arco de caça sobre minha mão esquerda. Da palma da mão direita sai uma flecha. Fricciono-a sobre o arco, encaixando sua base na fina linha metálica. Disparo. O segurança que atirou contra mim é atingido na cabeça. Criou outra flecha e assim, sucessivamente, mato todos os defensores do meu alvo. 

Funcionários do motel agora estão no corredor, apavorados. Eu faço o arco desaparecer e gesticulo sinal pedindo silêncio. Aproximo-me dos corpos para recolher minhas flechas, parte de mim. Ao final do trabalho uma camareira me chama:

— Ei você, seja lá o que for, parabéns!

— Acha que espero congratulações? 

— Calma, eu só estou dizendo que eu conheço o Doutor Maurício. Ele é vereador e todo mundo sabe que está envolvido em desvio de dinheiro. O negócio de casas populares, sabe? Muitas famílias carentes estão vivendo de aluguel ou nas ruas porque ele pegou o dinheiro que era destinado à construção de moradias para pessoas de baixa renda. Eu sou uma dessas pessoas! Meu aluguel está atrasado! Se eu não der um jeito até o final do mês, terei que ir para a rua com os meus meninos! E olha que eu trabalho pra caramba, mas não consigo sustentar meus três filhos e ainda pagar aluguel. E este filho da puta, desviou o dinheiro que seria usado para construir minha casinha. Que queime no Inferno!

Mogi Guaçu, 14 de maio de 2018, Paul Law

12 de julho de 2018

O capítulo 9 de V de Verônica acaba de ser publicado



Amigos, venho informar que o nono capítulo do livro "V de Verônica já está no ar! Você pode lê-lo aqui:


Todos os capítulos anteriores podem ser acessados aqui.

O livro no Issuu está assim:
Até a próxima! 

4 de julho de 2018

Aos melhores guerreiros as mais difíceis batalhas



Carmem Albuquerque Figueiredo mantinha a porta do seu escritório fechada. Em sua frente papéis eram relidos na ânsia de identificar um erro, uma contradição, uma informação que jogasse por terra tudo aquilo que o tratamento significava. Pesquisas incessantes, possibilidades, mas o espírito estava abalado. Mil pensamentos perpassam por aquele que sabe que possui uma enfermidade grave. 

Detentora de uma rede de supermercados bem-conceituada no país, Dona Carmem, como era conhecida por seus funcionários, mesmo naquelas condições gerenciava os seus negócios de perto. Cinquenta e poucos anos de vida, o trabalho duro, três divórcios e dois filhos tinham lhe ensinado muito. Havia superado todas as dificuldades enfrentadas, pois era uma mulher forte em vários sentidos, mas desleixada com a saúde. Na verdade, não era proposital, só não conseguia arrumar tempo para cuidar do próprio corpo. Então, quando o corpo se tornou prioridade, era tarde demais. 

Assim que os primeiros exames revelaram sua doença, achou que os médicos tinham cometido um erro. Depois, tentou assimilar aquele quadro clínico, acreditando veementemente na cura. Em seguida, começou a pensar em tempo; quanto tempo tinha? Nesta fase, ficou desesperada, afinal sempre considerou pelo menos vinte anos de sobrevida. 

O que tinha dentro de si era algo vivo que se alimentava do seu corpo e do seu espírito. Quanto mais crescia, mais forte se tornava e consequentemente mais debilitada ela ficava. A coisa a devorava incessantemente, mesmo sendo atacada por tratamentos devastadores. 

Decadência. Carmem era avessa a esta condição humana. Buscou benzedores, pais de santo, pastores e líquidos milagrosos, feitos de todo tipo de planta que se possa imaginar. Nada surtiu efeito, mas sua busca começou a se aproximar do caminho certo. Um cartão, uma empresa, um tratamento secreto. Grande quantia em dinheiro seria gasta, mas as possibilidades eram inacreditáveis. 

Uma cura, um recomeço, uma redenção. Obviamente, mesmo fragilizada pela doença, Carmem tinha o cérebro intacto e precisou de muito tempo para acreditar no que lhe era oferecido. Precisou estudar os documentos por muitas vezes. Era o que fazia mais uma vez naquele exato momento.  

E ela pôde escolher o corpo. 

Contudo, o procedimento tinha que ser realizado com urgência, pois sabia que estava morrendo. Morrendo, palavra perturbadora. Carmem não lidava bem com finais. Assim que o seu cérebro começou a organizar ideias de forma coerente, pensou sobre morte. O que havia depois? Cristã por culpa dos pais, aprendeu que as almas boas vão para o Céu e as ruins para o Inferno. Sua primeira solução visando o Céu, foi tornar-se Freira, já que uma vida toda dedicada ao Senhor lhe garantiria um lugar entre os escolhidos, certo? Entretendo o primeiro plano falhou assim que ganhou mais idade. Os sentimentos, os exemplos e então a ideia de que Deus não exigiria tanto de seus filhos culminaram na mudança de ideia. Ser boa, fazer o bem sem ir à Igreja, foi outra ideia que não vingou. O Mercado é um campo que exige muito de seus jogadores. Vencer no ramo empresarial nem sempre é possível sem galgar sobre as costas dos outros. Na verdade, nunca. Usar o tempo de vida dos próprios funcionários em troca de parcos salários já deve ser pecado. Os funcionários serão perdoados, afinal não sabem o que fazem, já Carmem...

A doença é um castigo que Deus lhe mandou, entendia assim. Sua mãe sempre lhe ensinou que Deus castigava aqueles que agiam mal; que pecavam. Era justo. Justo não seria morrer depois de tanto sofrimento. Se Deus é perfeito como acreditava que era não cometeria um erro lógico tão grave, O certo é se redimir depois da dor. Reeducar-se ao invés de sucumbir. Tinha tanto medo de morrer e Deus não seria Deus se lhe mandasse uma das piores maneiras de ser exterminada: aos poucos. 

Aos melhores guerreiros são dadas as mais difíceis batalhas, isto sim. Depôs os documentos, pegou o telefone e discou o número restrito da Copas.

Ninguém a atendeu.

Mogi Guaçu, 07 de fevereiro de 2018, Paul Law 

28 de junho de 2018

O oitavo capítulo de V de Verônica já foi publicado



Acabo de atualizar o livro "V de Verônica" com o capítulo oito. Você pode lê-lo clicando aqui e acompanhar toda a história por este link:

https://www.wattpad.com/story/142350685-v-de-ver%C3%B4nica/parts

O livro no Issuu está assim:

Fique de olho para conferir novas atualizações.
Abraço!

25 de junho de 2018

Futuro Seguro


O prazo para Willian Nascimento aderir ao Seguro estava no fim. Deveria assinar o contrato como todo ser que pretendia sobreviver naqueles dias caóticos e egoístas. Entretanto, tem um detalhe que o impede de fechar o negócio: Willian é pobre, esta é a primeira característica deste protagonista. Tal atributo, é preciso dizer, encarecia ainda mais os valores em questão.
Não é segredo que a Seguradora trouxe conforto à população. Entenda, naquele tempo a noção de conforto é diferente da que conhecemos hoje. Para Willian e sua geração conforto é o mesmo que segurança. Isto mesmo, sentir-se protegido, deitar-se em uma cama e ter um sono tranquilo; parar o seu veículo em um local público e encontrá-lo ali ao voltar de um compromisso; a sensação de ter um companheiro fiel; a impressão de que tudo está bem.
O jovem Nascimento, desculpem-me pelo trocadilho infame, nascia cada dia sem a certeza do amanhecer seguinte e não possuía, como é de se esperar, conforto ou segurança, chame do que melhor lhe convier. 
— Willian, não perca esta promoção: adquira já o Seguro Flamejante por apenas 13 mil unidades anuais e evite situações como esta.  
Aquela mulher, cujas feições pertenciam a quem o jovem idealizava como par prefeito, mas que não era humana, tornara-se constante na vida do rapaz; na existência de todos desde os primeiros anos, coisa normal para eles. Em palavras simples, A Sys é uma assistente pessoal onisciente da Seguradora com o objetivo de vender seguros. Ainda complicado? Bem, tente imaginar seu celular sendo uma pessoa de verdade, visível apenas por você, mas totalmente personalizável.   
 Foi engraçado como Willian viu Sys pela primeira vez, numa praça pública aos seis anos de idade. Ela materializou-se para ele como uma criança da sua idade, ofereceu-lhe sorvete, brincaram juntos.  Ao final ela disse a ele:
— Se fizer o seguro poderemos brincar todos os dias.
Willian pediu ao pai que lhe desse este presente, mas Lauro Nascimento não tinha condições. Homem de quarenta e poucos anos, trabalhador braçal e viúvo, ele mesmo não era um segurado e acabou perdendo a vida, aos cinquenta e cinco anos, numa tarde de verão ao sair das dependências da obra em que vinha trabalhando. 
Voltando ao presente e ao trocadilho infame do qual não me orgulho, pois estou ciente de que tratar-se já de um momento decisivo para Willian. O nosso jovem está encurralado por dois estudantes de idade pareada a dele. O diferencial e aqui vem a questão social de toda esta história, consiste no seguro. Ambos, como é de se esperar, são segurados. 
— Então, pobre, últimas palavras? 
Definindo melhor o momento, Willian está no chão desde que comecei a narrar esta história. Ele caiu depois de levar um soco de um dos garotos estudantes. O nome do agressor é Narciso e o seu seguro é de espécie denominada Hipotérmico um dos mais baratos, cuja principal característica é conferir ao seu usuário a capacidade de causar hipotermia em outros corpos pelo toque. Narciso, além de querer testar a potência de sua proteção securitária, deseja limpar o bairro de pessoas como Willian. 
O seu companheiro, calado, um pouco obeso, é mais cauteloso:
— Larga mão, cara. Vamos pra escola, anda!
— Para de ser cagão, Israel. Pobre tem que morrer. 
— Eu sei, mas não vale o nosso atraso. Que ser suspenso?
O soco gelado de Narciso pegou Willian de surpresa porque antes de eu começar a contar sua história ele estava pedindo à Sys (mais uma vez) uma amostra gratuita de qualquer seguro, apenas para se ver livre daquele inconveniente. A resposta daquela vez? Vejam:
— Não, Willian. Você quer me fazer de boba! Que história vai inventar agora? Pai doente, mãe presa, irmão político? Posso relembrar todas se preferir, está tudo gravado no meu banco de dados. Se bem que, não temos tempo para isso...
— Dessa vez é sério, Sys. Eu sei que preciso da proteção definitiva, mas ainda estou indeciso sobre o tipo. Mande-me o de choque, que tal? 
— Cuidado! 
— O que?
O soco.
Willian leva os dedos aos lábios, a sensação não é nova. A mão gelada de Narciso em seu nariz, olho, lábios, por quantas vezes? Sys poderia dizer, mas a assistente não se mantém ativa naquele momento. O que as assistentes dos agressores sussurram para eles? Mate, Bata, Defenda-se. É irônico que a palavra defesa seja interpretada de maneira errônea e signifique justamente o inverso. Irônico, mas comum. 
— Por que não escuta o seu amigo? — Willian indaga a Narciso. — Eu não sou alguém que valha a pena. 
Nosso Willian tem mesmo razão, ele reúne poucas características que fazem jus ao seu papel nesta trama. Conta com dezenove anos de vida, nenhuma instrução acadêmica, um barraco herdado e uma mochila equipada com sua marmita que será sua única refeição para aquele dia. Bem, vejam pelo lado bom: se ele morrer agora, não passará fome mais tarde.  Ao perder o pai, seu único parente vivo, substitui-o na construção, sendo que ia para lá quando foi atacado pelos infames estudantes. Se podemos, então, definir uma habilidade ao nosso homem, seria a de construir imóveis. Sim, Willian é um pedreiro, ofício que aprendeu com o pai e que garante sua parca sobrevivência. O jovem é inteligente, dizem seus companheiros de profissão mais antigos, mas imprudente. Creio que já percebemos isto, não é? 
— Ele tem razão, cara. Já estamos atrasados. 
— Só mais um minuto ou dois, Israel. 
Narciso se aproxima e agarra pescoço de Willian. A pele do jovem pedreiro começa a esfriar, o ar mais gelado, sua cabeça a doer. Seu pensamento? A comida vai mesmo estragar, que tragédia!

Mogi Guaçu, 29 de maio de 2018, Paul Law 

14 de junho de 2018

Capítulo 7 - V de Verônica

Leia todos os capítulos já publicados aqui

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Os dias que se seguiram na penitenciária feminina foram mais calmos. Vou explicar o motivo. Rita me contou que a notícia de minha existência e prisão se espalhou rapidamente, o que trouxe atenção ao local em que estou “hospedada”. 
As presas que me agrediram tiveram que ser transferidas de pavilhão e Gilda estava respondendo a uma sindicância. A carcereira comentou, ainda, que a diretora podia ser afastada a qualquer momento por ter feito vista grossa ao canivete de minhas agressoras. Rita chegou a comentar que suspeitava que a própria diretora tinha pedido às presas que me testassem. 
O estabelecimento prisional foi visitado por entidades reguladoras, as condições dos presos revistas e adequadas. Até mesmo a minha. Eu já tinha uma cela exclusiva, mas ganhei colchão e papel higiênico, além de livros para leitura. Como havia me habituado em liberdade, passei o tempo nas páginas, esquecendo-me da triste realidade. 
Nos banhos de sol, eu estava algemada nos pés e nas mãos. Até mesmo em minha cela, as algemas de tornozelos se faziam presentes.
Gilda aparecia nas grades de minha cela em seus plantões e me contava alguma coisa do que estava acontecendo lá fora.  Aproveitava para dar sua versão sobre minha condição. 
— Você tem sorte. Todo mundo está de olho, até parece que preso voltou a ser gente.
— Preso é gente — vociferei. 
Ela deu de ombros, respondeu: 
— De todo jeito, vamos ver até onde você vai. Lembra-se do que te disse no primeiro dia? Eu quero ver até quando consegue sobreviver.
Ainda bem que eu tinha o livro, pois as presas não se aproximavam de mim. Elas tinham medo, explicou-me Benedita, a outra carcereira. Medo de que eu revidasse ou de que fossem transferidas. 
Eu ansiava por uma visita, qualquer uma, fosse Felipe para me pedir desculpas, fosse Valéria para me tirar de lá ou Meire, para me levar a outra audiência. Entretanto, elas não vieram, mesmo o grande volume de pessoas nos dias de visita dizendo o contrário. 
As pessoas até queriam me ver, mas não podiam. 
Então, num dia que não era reservado a visitas uma equipe de TV apareceu. Sim, foi desse jeito que eu conheci Marcelo Siqueira, o jornalista que me descobriu. Ele era o homem com o microfone na mão que se aproximou do corredor de celas dizendo que mostraria em primeira mão o primeiro super-herói da história. 
Eu o odiei imediatamente. 
Era um homem alto, de pele clara, olhos castanhos e barba bem cuidada. Os cabelos penteados para trás, lisos, fixados por gel. Vestia um terno fino, tinha uma barriga sobressalente. Vinha acompanhado de um cinegrafista. 
— Mostra aqui! — foi a primeira coisa que ele disse, referindo-se a mim. 
Eu encarei a câmera com aborrecimento. Afastei-me das grades. Marcelo me disse:
— Sou Marcelo Siqueira da TV Local, como vai? O público quer saber como você conseguiu seus poderes. 
Eu não lhe respondi. Ele continuou falando de mim, do processo e de sua opinião sobre minhas atitudes. Insistiu mais uma vez por uma declaração, que recusei. Falou:
— Bem, gente, ela não quer falar. É uma pena, já que a população gostaria de saber por que ela não ajuda as pessoas.
— Você não sabe nada sobre mim! — respondi, irritada. 
— Estou escrevendo um livro a seu respeito.  
— Como você me descobriu? 
Ele sorriu com vontade e fez um sinal para que a gravação fosse interrompida. Aproximou-se das grades e me contou, triunfante:
— Explica uma coisa: se estava tentando se esconder, por que fez exame de sangue no Hospital Municipal?
— Então foi assim que fui descoberta... 
Eu sabia do que o repórter estava falando. Foi numa manhã no Hospital Municipal e aconteceu por insistência de Felipe. Ele teimou que eu deveria realizar exame de sangue para saber a tipagem, a fim de evitar o problema do fator RH caso tivéssemos filhos. Eu tentei convencê-lo de que não era preciso realizar qualquer exame; disse que tinha medo de agulhas ou qualquer coisa parecida, mas pouco convincente. Isso o deixou cismado. Com a minha recusa confessou-me que achava que sua namorada estava escondendo algo. Estava mesmo, mas não o que ele imaginava; não uma doença, bem talvez uma doença, mas não o que ele pensava que fosse. No fim, cedi e realizei o exame, cujo resultado, soube dias depois, foi normal e minha tipagem sanguínea deu para AB. 
— Tenho contatos no laboratório do hospital, sabia? Eu farejei uma boa história, assim que minha fonte me falou sobre células com propriedades incríveis. 
— Você arruinou minha vida! Eu não sou uma criminosa! 
— Acha que isso importa? Parou para pensar no que está em jogo aqui? Eu sou só um cara que apresentou fatos contundentes sobre um ser com a capacidade de se regenerar instantaneamente, o que aconteceu depois não tem nada a ver comigo.
— Você começou com tudo isso! A culpa é sua! 
— Escute, estou faturando com o que descobri, nada mais justo. Consegui um emprego na televisão e quer saber? Ninguém liga se é verdade ou não. Eles querem notícia. Você pode ficar calada, pode responder as minhas perguntas, tanto faz. O que importa é o que eu farei depois com as imagens que consegui aqui. É assim que as coisas funcionam, Mulher-Maravilha. 
— Você é sujo! 
— Obrigado — Marcelo Siqueira fez uma reverência. 
Pigarreou e se voltou para o cinegrafista. Disse:
— No três voltamos a gravar. Um dois...