10 de junho de 2019

Fezesman - A cara do pai

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3 de junho de 2019

Espaço Pequeno



Que possamos fazer por merecer antes de pedir. O merecimento está nos olhos dos outros e quando ele estiver nos nosso, que não seja em relação a atos próprios. Reclamar também não é prudente; que o tempo gasto com o inconformismo seja dispendido com adaptação. Por último e mais importante, que o espaço que ocupamos no mundo seja pequeno, mas de ausência sentida. 


Paul Law, Mogi Guaçu, 03 de junho de 2019 

   

28 de maio de 2019

MOSTRA DE LITERATURA POPULAR ASSIS ODERAN

Ocorreu no final de semana passado, nos dias 25 e 26 de maio de 2019, a 2ª Mostra Literária Popular Assis Oderan. O evento foi realizado na Chácara Silvestre em São Bernardo do Campo e contou com a participação de vários artistas da região.

O Artista Plástico José Pereira de Souza, o Zep, é o organizador da Mostra Literária. Jamelão, criador do projeto Anjos da Rua e Inspirados aqui de Mogi Guaçu esteve presente e representou nossa cidade no evento cultural. Ele conferiu a obra de dois escritores guaçuanos na Mostra: Marcos Cunha e Paul Law.

Veja algumas imagens do evento:

Zep ao lado do poeta Assis Oderan, o artista que leva o nome da Mostra Literária
A apresentação do Grupo de Capoeira São Bernardo


Vários artistas participaram!

Ester, O Segredo da Lancheira e A Menina que Tinha Medo de Barata estavam lá

Os livros de Marcos Cunha

Zep e Jamelão expondo os nossos livros!

Sucesso!

Fica registrado o meu agradecimento ao Zep por acreditar em nós; por dar espaço e voz à Cultura do povo. Ao Jamelão por nos representar e sempre acreditar nos nossos meninos.

Fica o registro!
Abraço.       

17 de maio de 2019

Benjamim e Famosa



A música do começo do ato começa a tocar e Benjamim dança com as outras cinco princesas. Quando a música cessa, uma delas está nos braços do rapaz. É uma mulher ofegante, forte, magra, de cabelos louros, arrumados num coque tradicional. 
— Saudações, sou Princesa Famosa. Case-se comigo, Benjamim, e terá reconhecimento. Por todos os séculos se lembrarão do menino e sua cadeira; falarão o nome Benjamim em teatros do mundo todo. Esta peça receberá prêmios, você títulos. Que tal? 
— Devo admitir que você mexe comigo. Desde o momento em que entrou no palco, chamou minha atenção por causa dos seus olhos de ressaca tal qual Capitu de Machado — Benjamim, desvia os olhos do rosto de Famosa. — És perigosa, penso. O ego é terrível, minha cara princesa.
— Ora, vamos. Pense mais em si mesmo. Não acha que merece ser reconhecido? Que sua história é importante? Não é disso que se trata este grande espetáculo? Sei que sim, eu te conheço...
— Não duvido. Mas, veja, se eu fizer algo pensando em reconhecimento não estarei agindo com segundas intenções? Não foi Kant que ensinou às pessoas a evitarem a agir pensando num resultado? Uma ação é uma ação, não duas! Então, se eu ajudar alguém com a intenção de ser ajudado por esta pessoa numa outra ocasião não seria apenas uma ação? A ação de cobrar mais tarde. Eu seria uma péssima pessoa se minhas ações fossem assim, não acha? 
— Todos fazem isso. 
— Talvez, mas eu não quero ser como todos. Já não sou, não vê? Busco a liberdade; fazer o que tenho vontade. Penso que se eu não tiver vontade de ajudar alguém, não devo ajudar. Sei que parece horrível falar assim, mas é melhor deixar de agir do que agir com segundas intenções. É mais honesto. 
— Quem liga para o que é honesto, para o que é melhor? Cada qual se importa consigo mesmo. Os outros vão te admirar se fizer algo para eles, mesmo que cobre o favor depois. Além disso, quando estiver no topo, ninguém vai se lembrar dos seus defeitos! Não seja burro, Benjamim. Eu sei que você não é! 
— Sabes de mim, não nego. Admito que gosto de você, mas quero ouvir as outras pretendentes. 
— Eu vou, mas sempre estarei presente.

Paul Law, Mogi Guaçu, 22 de abril de 2019

9 de maio de 2019

Gelocubo - Para minha mãe


2 de maio de 2019

Cheiro de Tarde



Quando o sol vai se pondo, as cores do dia, descolorindo e os pássaros começam a se amontoarem nas árvores, a Tarde começa a emanar o seu cheiro. O cheiro da Tarde me parece um misto de fim com começo, um cheiro de mato esfriando; de folha de eucalipto batida com cana-de-açúcar; minhoca revirada num potinho de pescar; água de açude. Tem som também, muitos, mas só consigo me lembrar do de água passando. 


Paul Law, Mogi Guaçu, 02 de maio de 2019
    

16 de abril de 2019

Gelocubo - Não deixe para amanhã

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12 de abril de 2019

Benjamim e Rica



A luz se apaga. Outros bailarinos entram no palco pelo lado esquerdo. São seis moças que começam a dançar “O Lago dos Cisnes” de Peter Ilich Tchaikovsky. São suaves, leves e imponentes, quase que iguais fisicamente, trajando collant e saia tutu negros; meia-calça branca e sapatilhas pretas. Rodeiam Benjamim e dançam alegremente. A música cessa e uma delas faz uma reverência ao rapaz. Fala:
— Saudações, sou princesa e desejo me casar com o senhor! 
As outras bailarinas fazem o mesmo e dizem as mesmas palavras. Benjamim se afasta e responde:
— Sei bem quem são, mas francamente não me agrada ser cortejado. 
— Qualquer um de nós poderá te dar felicidade! Eu sou Rica. 
— Rica? — pergunta Benjamim. 
— Sim, diga-me o que deseja. Moedas de ouro? Súditos? Uma coroa cravejada de diamantes! Dentre as seis pretendentes sou aquela que pode de dar tudo! 
— Já parou para pensar em riqueza? Eu, certamente, apesar de estarmos nos conhecendo agora. O grosso livro chamado dicionário bem diz que riqueza é ter grande quantidade de dinheiro, posses, bens materiais, propriedades.
— Exatamente o meu caso — Rica estufa o peito ao dizer estas palavras.
— Não digo o contrário, mas raciocine comigo: temos dias contados sobre a Terra; temos batidas certas de coração para dar. Pouco tempo para usufruir e preferes gastá-lo para juntar? São duas ações diferentes usufruir e juntar e não se pode fazer as duas ao mesmo tempo. O meu receio é passar os meus poucos dias amontoado coisas ao invés de desfrutá-las. Seria terrível se Sempre Assim passasse mais uma vez e me dissesse: seu tempo acabou! Depois viria a senhora Finda Perecida e me diria: ora de ir! Eu ficaria desesperado, olharia para trás e pensaria no quanto ainda tenho que fazer; no tempo que gastei fazendo algo ruim ao invés de uma coisa boa. 
— Desculpa de plebe. Eu sou princesa, meu pai era rei, meu filho, aquele que gostaria de ter contigo será rei. Não precisará juntar, pois já juntaram antes dele. Dinheiro não trás felicidade? Balela! 
— Sei que para um rico é difícil pensar em não ser rico. Preferes se preocupar com posses, planos, construções e ações que busquem aumentar seu patrimônio do que ter paz. Mesmo que tenha muito e que todos os seus dias sejam insuficientes para gastar o que já lhe é herança, ainda assim não terá paz. Pensará que podem lhe roubar; que o dinheiro está acabando; que lhe tratam com segundas intenções. A paz não é para os ricos. 
— Não me importo com a paz desde que haja fortuna. Case-se comigo e seja feliz! 
— Eu me importo com a paz.  
Rica não consegue esconder sua frustração. Palavras pulam do seu cérebro para a boca, mas ela as segura com os lábios. Pensa, repensa, tem vontade de insultar Benjamim, mas se contém. Na ponta dos pés, com as mãos na cintura dá uma volta ao redor do jovem, ganhando mais calma. Ela tem uma reputação a zelar, um status a manter. O que dirão as outras princesas? Então finaliza:
— Ouvirá as outras pretendentes e verás que sou um bom partido, a melhor na verdade. Uma lástima que não note agora. Depois de todas e se eu ainda te querer, poderemos ficar juntos.
A Princesa Rica sai pela esquerda pisando alto. A música do começo do ato começa a tocar e Benjamim dança com as outras cinco princesas. Quando a música cessa, uma delas está nos braços do rapaz. É uma mulher ofegante, forte, magra, de cabelos louros, arrumados num coque tradicional. 

Paul Law, Mogi Guaçu, 20 de março de 2019

3 de abril de 2019

Negrinha

Fascinação”, Pedro Peres, 1909, Pinacoteca do Estado de São Paulo. Fonte: https://ensinarhistoriajoelza.com.br/negrinha-de-monteiro-lobato-preconceito-e-racismo/ - Blog: Ensinar História - Joelza Ester Domingues

Negrinha

Negrinha era uma pobre órfã de sete anos. Preta? Não; fusca, mulatinha escura, de cabelos ruços e olhos assustados.

Nascera na senzala, de mãe escrava, e seus primeiros anos vivera-os pelos cantos escuros da cozinha, sobre velha esteira e trapos imundos. Sempre escondida, que a patroa não gostava de crianças.

Excelente senhora, a patroa. Gorda, rica, dona do mundo, amimada dos padres, com lugar certo na igreja e camarote de luxo reservado no céu. Entaladas as banhas no trono (uma cadeira de balanço na sala de jantar), ali bordava, recebia as amigas e o vigário, dando audiências, discutindo o tempo. Uma virtuosa senhora em suma — “dama de grandes virtudes apostólicas, esteio da religião e da moral”, dizia o reverendo.

Ótima, a dona Inácia.

Mas não admitia choro de criança. Ai! Punha-lhe os nervos em carne viva. Viúva sem filhos, não a calejara o choro da carne de sua carne, e por isso não suportava o choro da carne alheia. Assim, mal vagia, longe, na cozinha, a triste criança, gritava logo nervosa:

— Quem é a peste que está chorando aí?

Quem havia de ser? A pia de lavar pratos? O pilão? O forno? A mãe da criminosa abafava a boquinha da filha e afastava-se com ela para os fundos do quintal, torcendo-lhe em caminho beliscões de desespero.

— Cale a boca, diabo!

No entanto, aquele choro nunca vinha sem razão. Fome quase sempre, ou frio, desses que entanguem pés e mãos e fazem-nos doer...

Assim cresceu Negrinha — magra, atrofiada, com os olhos eternamente assustados. Órfã aos quatro anos, por ali ficou feito gato sem dono, levada a pontapés. Não compreendia a idéia dos grandes. Batiam-lhe sempre, por ação ou omissão. A mesma coisa, o mesmo ato, a mesma palavra provocava ora risadas, ora castigos. Aprendeu a andar, mas quase não andava. Com pretextos de que às soltas reinaria no quintal, estragando as plantas, a boa senhora punha-a na sala, ao pé de si, num desvão da porta.

— Sentadinha aí, e bico, hein?

Negrinha imobilizava-se no canto, horas e horas.

— Braços cruzados, já, diabo!

Cruzava os bracinhos a tremer, sempre com o susto nos olhos. E o tempo corria. E o relógio batia uma, duas, três, quatro, cinco horas — um cuco tão engraçadinho! Era seu divertimento vê-lo abrir a janela e cantar as horas com a bocarra vermelha, arrufando as asas. Sorria-se então por dentro, feliz um instante.

Puseram-na depois a fazer crochê, e as horas se lhe iam a espichar trancinhas sem fim.

Que idéia faria de si essa criança que nunca ouvira uma palavra de carinho? Pestinha, diabo, coruja, barata descascada, bruxa, pata-choca, pinto gorado, mosca-morta, sujeira, bisca, trapo, cachorrinha, coisa-ruim, lixo — não tinha conta o número de apelidos com que a mimoseavam. Tempo houve em que foi a bubônica. A epidemia andava na berra, como a grande novidade, e Negrinha viu-se logo apelidada assim — por sinal que achou linda a palavra. Perceberam-no e suprimiram-na da lista. Estava escrito que não teria um gostinho só na vida — nem esse de personalizar a peste...

O corpo de Negrinha era tatuado de sinais, cicatrizes, vergões. Batiam nele os da casa todos os dias, houvesse ou não houvesse motivo. Sua pobre carne exercia para os cascudos, cocres e beliscões a mesma atração que o ímã exerce para o aço. Mãos em cujos nós de dedos comichasse um cocre, era mão que se descarregaria dos fluidos em sua cabeça. De passagem. Coisa de rir e ver a careta...

A excelente dona Inácia era mestra na arte de judiar de crianças. Vinha da escravidão, fora senhora de escravos — e daquelas ferozes, amigas de ouvir cantar o bolo e estalar o bacalhau. Nunca se afizera ao regime novo — essa indecência de negro igual a branco e qualquer coisinha: a polícia! “Qualquer coisinha”: uma mucama assada ao forno porque se engraçou dela o senhor; uma novena de relho porque disse: “Como é ruim, a sinhá!”...

O 13 de Maio tirou-lhe das mãos o azorrague, mas não lhe tirou da alma a gana. Conservava Negrinha em casa como remédio para os frenesis. Inocente derivativo:

— Ai! Como alivia a gente uma boa roda de cocres bem fincados!...

Tinha de contentar-se com isso, judiaria miúda, os níqueis da crueldade. Cocres: mão fechada com raiva e nós de dedos que cantam no coco do paciente. Puxões de orelha: o torcido, de despegar a concha (bom! bom! bom! gostoso de dar) e o a duas mãos, o sacudido. A gama inteira dos beliscões: do miudinho, com a ponta da unha, à torcida do umbigo, equivalente ao puxão de orelha. A esfregadela: roda de tapas, cascudos, pontapés e safanões a uma — divertidíssimo! A vara de marmelo, flexível, cortante: para “doer fino” nada melhor!

Era pouco, mas antes isso do que nada. Lá de quando em quando vinha um castigo maior para desobstruir o fígado e matar as saudades do bom tempo. Foi assim com aquela história do ovo quente.

Não sabem! Ora! Uma criada nova furtara do prato de Negrinha — coisa de rir — um pedacinho de carne que ela vinha guardando para o fim. A criança não sofreou a revolta — atirou-lhe um dos nomes com que a mimoseavam todos os dias.

— “Peste?” Espere aí! Você vai ver quem é peste — e foi contar o caso à patroa.

Dona Inácia estava azeda, necessitadíssima de derivativos. Sua cara iluminou-se.

— Eu curo ela! — disse, e desentalando do trono as banhas foi para a cozinha, qual perua choca, a rufar as saias.

— Traga um ovo.

Veio o ovo. Dona Inácia mesmo pô-lo na água a ferver; e de mãos à cinta, gozando-se na prelibação da tortura, ficou de pé uns minutos, à espera. Seus olhos contentes envolviam a mísera criança que, encolhidinha a um canto, aguardava trêmula alguma coisa de nunca visto. Quando o ovo chegou a ponto, a boa senhora chamou:

— Venha cá!

Negrinha aproximou-se.

— Abra a boca!

Negrinha abriu aboca, como o cuco, e fechou os olhos. A patroa, então, com uma colher, tirou da água “pulando” o ovo e zás! na boca da pequena. E antes que o urro de dor saísse, suas mãos amordaçaram-na até que o ovo arrefecesse. Negrinha urrou surdamente, pelo nariz. Esperneou. Mas só. Nem os vizinhos chegaram a perceber aquilo. Depois:

— Diga nomes feios aos mais velhos outra vez, ouviu, peste?

E a virtuosa dama voltou contente da vida para o trono, a fim de receber o vigário que chegava.

— Ah, monsenhor! Não se pode ser boa nesta vida... Estou criando aquela pobre órfã, filha da Cesária — mas que trabalheira me dá!

— A caridade é a mais bela das virtudes cristas, minha senhora —murmurou o padre.

— Sim, mas cansa...

— Quem dá aos pobres empresta a Deus.

A boa senhora suspirou resignadamente.

— Inda é o que vale...

Certo dezembro vieram passar as férias com Santa Inácia duas sobrinhas suas, pequenotas, lindas meninas louras, ricas, nascidas e criadas em ninho de plumas.

Do seu canto na sala do trono, Negrinha viu-as irromperem pela casa como dois anjos do céu — alegres, pulando e rindo com a vivacidade de cachorrinhos novos. Negrinha olhou imediatamente para a senhora, certa de vê-la armada para desferir contra os anjos invasores o raio dum castigo tremendo.

Mas abriu a boca: a sinhá ria-se também... Quê? Pois não era crime brincar? Estaria tudo mudado — e findo o seu inferno — e aberto o céu? No enlevo da doce ilusão, Negrinha levantou-se e veio para a festa infantil, fascinada pela alegria dos anjos.

Mas a dura lição da desigualdade humana lhe chicoteou a alma. Beliscão no umbigo, e nos ouvidos, o som cruel de todos os dias: “Já para o seu lugar, pestinha! Não se enxerga”?

Com lágrimas dolorosas, menos de dor física que de angústia moral —sofrimento novo que se vinha acrescer aos já conhecidos — a triste criança encorujou-se no cantinho de sempre.

— Quem é, titia? — perguntou uma das meninas, curiosa.

— Quem há de ser? — disse a tia, num suspiro de vítima. — Uma caridade minha. Não me corrijo, vivo criando essas pobres de Deus... Uma órfã. Mas brinquem, filhinhas, a casa é grande, brinquem por aí afora.

— Brinquem! Brincar! Como seria bom brincar! — refletiu com suas lágrimas, no canto, a dolorosa martirzinha, que até ali só brincara em imaginação com o cuco.

Chegaram as malas e logo:

— Meus brinquedos! — reclamaram as duas meninas.

Uma criada abriu-as e tirou os brinquedos.

Que maravilha! Um cavalo de pau!... Negrinha arregalava os olhos. Nunca imaginara coisa assim tão galante. Um cavalinho! E mais... Que é aquilo? Uma criancinha de cabelos amarelos... que falava “mamã”... que dormia...

Era de êxtase o olhar de Negrinha. Nunca vira uma boneca e nem sequer sabia o nome desse brinquedo. Mas compreendeu que era uma criança artificial.

— É feita?... — perguntou, extasiada.

E dominada pelo enlevo, num momento em que a senhora saiu da sala a providenciar sobre a arrumação das meninas, Negrinha esqueceu o beliscão,o ovo quente, tudo, e aproximou-se da criatura de louça. Olhou-a com assombrado encanto, sem jeito, sem ânimo de pegá-la.

As meninas admiraram-se daquilo.

— Nunca viu boneca?

— Boneca? — repetiu Negrinha. — Chama-se Boneca?

Riram-se as fidalgas de tanta ingenuidade.

— Como é boba! — disseram. — E você como se chama?

— Negrinha.

As meninas novamente torceram-se de riso; mas vendo que o êxtase da bobinha perdurava, disseram, apresentando-lhe a boneca:

— Pegue!

Negrinha olhou para os lados, ressabiada, como coração aos pinotes. Que ventura, santo Deus! Seria possível? Depois pegou a boneca. E muito sem jeito, como quem pega o Senhor menino, sorria para ela e para as meninas, com assustados relanços de olhos para a porta. Fora de si, literalmente... era como se penetrara no céu e os anjos a rodeassem, e um filhinho de anjo lhe tivesse vindo adormecer ao colo. Tamanho foi o seu enlevo que não viu chegar a patroa, já de volta. Dona Inácia entreparou, feroz, e esteve uns instantes assim, apreciando a cena.

Mas era tal a alegria das hóspedes ante a surpresa extática de Negrinha, e tão grande a força irradiante da felicidade desta, que o seu duro coração afinal bambeou. E pela primeira vez na vida foi mulher. Apiedou-se.

Ao percebê-la na sala Negrinha havia tremido, passando-lhe num relance pela cabeça a imagem do ovo quente e hipóteses de castigos ainda piores. E incoercíveis lágrimas de pavor assomaram-lhe aos olhos.

Falhou tudo isso, porém. O que sobreveio foi a coisa mais inesperada do mundo — estas palavras, as primeiras que ela ouviu, doces, na vida:

— Vão todas brincar no jardim, e vá você também, mas veja lá, hein?

Negrinha ergueu os olhos para a patroa, olhos ainda de susto e terror. Mas não viu mais a fera antiga. Compreendeu vagamente e sorriu.

Se alguma vez a gratidão sorriu na vida, foi naquela surrada carinha...

Varia a pele, a condição, mas a alma da criança é a mesma — na princesinha e na mendiga. E para ambos é a boneca o supremo enlevo. Dá a natureza dois momentos divinos à vida da mulher: o momento da boneca — preparatório —, e o momento dos filhos — definitivo. Depois disso, está extinta a mulher.

Negrinha, coisa humana, percebeu nesse dia da boneca que tinha uma alma. Divina eclosão! Surpresa maravilhosa do mundo que trazia em si e que desabrochava, afinal, como fulgurante flor de luz. Sentiu-se elevada à altura de ente humano. Cessara de ser coisa — e doravante ser-lhe-ia impossível viver a vida de coisa. Se não era coisa! Se sentia! Se vibrava!

Assim foi — e essa consciência a matou.

Terminadas as férias, partiram as meninas levando consigo a boneca, e a casa voltou ao ramerrão habitual. Só não voltou a si Negrinha. Sentia-se outra, inteiramente transformada.

Dona Inácia, pensativa, já a não atazanava tanto, e na cozinha uma criada nova, boa de coração, amenizava-lhe a vida.

Negrinha, não obstante, caíra numa tristeza infinita. Mal comia e perdera a expressão de susto que tinha nos olhos. Trazia-os agora nostálgicos, cismarentos.

Aquele dezembro de férias, luminosa rajada de céu trevas adentro do seu doloroso inferno, envenenara-a.

Brincara ao sol, no jardim. Brincara!... Acalentara, dias seguidos, a linda boneca loura, tão boa, tão quieta, a dizer mamã, a cerrar os olhos para dormir. Vivera realizando sonhos da imaginação. Desabrochara-se de alma.

Morreu na esteirinha rota, abandonada de todos, como um gato sem dono. Jamais, entretanto, ninguém morreu com maior beleza. O delírio rodeou-a de bonecas, todas louras, de olhos azuis. E de anjos... E bonecas e anjos remoinhavam-lhe em torno, numa farândola do céu. Sentia-se agarrada por aquelas mãozinhas de louça — abraçada, rodopiada.

Veio a tontura; uma névoa envolveu tudo. E tudo regirou em seguida, confusamente, num disco. Ressoaram vozes apagadas, longe, e pela última vez o cuco lhe apareceu de boca aberta.

Mas, imóvel, sem rufar as asas.

Foi-se apagando. O vermelho da goela desmaiou...

E tudo se esvaiu em trevas.

Depois, vala comum. A terra papou com indiferença aquela carnezinha de terceira — uma miséria, trinta quilos mal pesados...

E de Negrinha ficaram no mundo apenas duas impressões. Uma cômica, na memória das meninas ricas.

— “Lembras-te daquela bobinha da titia, que nunca vira boneca?”

Outra de saudade, no nó dos dedos de dona Inácia.

— “Como era boa para um cocre!...”




O Conto Negrinha faz parte de um livro de contos ficcional de mesmo título, escrito por Monteiro Lobato, publicado em 1920.

28 de março de 2019

A Viúva Silenciosa - Tilly Bagshawe


Um romance policial mediano

Sidney Sheldon é um escritor muito conhecido, detentor de números impressionantes. Escreveu muitos livros, trabalhou com televisão e consolidou o seu nome no mercado. Embora alguns torçam o nariz quanto a obra dele por julgarem comercial demais; pouco inovador, fato é que o autor fez muito sucesso. Tanto que, mesmo após sua morte continua a publicar livros. Claro que a pessoa física Sidney Sheldon não é responsável pelas obras, mas sua família transformou o nome "Sidney Sheldon" em uma marca. Nesse ponto entra a escritora Tilly Bagshawe, a verdadeira autora do livro. Segundo a própria viúva de Sheldon, Tilly tem um estilo muito próximo ao do autor e neste "A Viúva Silenciosa" podemos conferir se ela está certa ou não.

A história gira em torno da bela psicóloga Nikki Roberts e assassinatos. Duas pessoas ligadas à doutora Roberts são mortas: uma de suas pacientes e o seu secretário. Os detetives Goodman e Johnson começam a investigar os crimes, mas pouco avançam. Um deles, o preconceituoso Mick Johnson até chega a teorizar que Nikki é a criminosa. Contudo, após contratar o detetive particular Willian, a psicóloga começa a desvendar os crimes e perceber que tudo aquilo faz parte de algo muito maior, envolvendo o próprio assassinato do seu marido, tráfico de drogas e corrupção.

Leitores atentos vão perceber que o enredo de "A Viúva Silenciosa" é similar ao de "A Outra Face", este último assinado de verdade por Sheldon. Terá a impressão, inclusive, que Bagshawe se "inspirou em tal obra para criar a história da doutora Roberts. Trocou o psicanalista Judd pela psicóloga Nikki. Até mesmo as pessoas que morrem no início da trama possuem funções idênticas e são em mesmo número: dois. Estes fatos tiram o brilho de uma obra original. Obviamente que "A Viúva Silenciosa" não é só uma imitação de um livro famoso e antigo. Há elementos atuais, como a questão do preconceito, o politicamente correto e assédio. Contudo, a trama acaba sendo superficial e artificial. Sheldon era meticuloso com a descrição dos locais e Bagshawe tenta imitá-lo neste quesito. Até consegue no começo, mas depois, conforme a autora vai ganhando liberdade, suas características ficam mais evidentes. Tilly é mais da ação, explosiva; menos detalhista com o cenário.  

Uma leitura longa, empolgante em alguns pontos, mas que peca por tentar criar uma "fórmula de Sidney Sheldon de escrever livro". 

Fica a resenha. 

25 de março de 2019

O Profeta Jessé



O profeta Jessé ergueu as mãos e duas rodas de suor ficaram evidentes embaixo dos seus braços. A manta dourada não era eficiente para esconder a transpiração e ficava feio nas filmagens. Muitos fiéis acompanhavam a pregação sob o sol escaldante daquela tarde e o espaço aberto improvisado para um “sermão” parecia insuficiente. Jessé pediu um copo de água para os seus súditos mais próximos. Segurou o recipiente transparente com as duas mãos e bebeu, trêmulo por causa do Parkinson. Agradeceu com uma reverência e começou mais um dos seus sermões:
— É bobagem dizer que o homem peca. Deus sabendo de tudo, sabe da Natureza humana e concorda com ela. Ele sabe que o homem cometerá erros e não se importa com isso! Deus quer que o homem peque e aprenda com o pecado para que, por si mesmo não volte a pecar. Então, caríssimos fiéis pequem o necessário para aprender com vossos erros. 
Ouviu-se inúmeros comentários, confusos. Murilo, o discípulo mais próximo de Jessé baixou os olhos já ciente da confusão que as palavras do mestre causavam. Em toda cidade era a mesma coisa.
— Esqueçam as regras pré-estabelecidas se elas não significam nada a vocês. Se o preceito de assassinar alguém não parece errado a um homem, poderá ele matar pelo menos uma vez. Porque após causar uma morte, o homem verá por si mesmo que cometeu um erro e não voltará a cometê-lo.
— Este homem é louco! — bradou alguém. 
Jessé uniu as duas mãos em prece. 
— Rezem comigo. Peçam por serenidade a fim de aprender com os erros e coragem para não os repetir depois de saber que é errado o que fazem. Coragem para não pecar mesmo que seja grande a vantagem. Nada é maior do que fazer o certo. 
Após os minutos destinados a oração da coragem e serenidade, como o profeta chamava aquele exercício moral, formou-se a fila tradicional para a realização dos milagres, a verdadeira razão de todos estarem ali.

Paul Law, Mogi Guaçu, 29 de novembro de 2018.

13 de março de 2019

Fezesman - Meditação

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6 de março de 2019

Francisco de Terra



Era uma vez duas irmãs que gostavam de brincar com terra. A mais velha, de nove anos, se chamava Bárbara; a menor tinha o nome de Beatriz e contava com cinco anos. Certo dia, uma segunda-feira para ser preciso, as duas criaram Francisco de Terra. Sim, de terra por parte de mãe; dos primos de areia e dos tios de pedrisco. Um boneco muito especial, feito de barro e imaginação como tudo que é bom deve ser feito. Não foi com isso que Deus criou o homem? Claro que Bárbara e Bia não eram Deus, apenas duas meninas brincando. 
Foi assim que se deu a Criação (e olha que demorou viu!): a Bárbara juntou terra marrom; a Bia buscou água. As duas misturaram as coisas. Depois de pronto o Chico ficou com quase um metro de tamanho! Pernas finas, um pé grande outro menor, um joelho mais baixo do que outro e uma cabeça bem redonda. Era careca, tinha olhos de buraco de dedo de criança em bolo de aniversário. 
— E a boca? Ele não tem boca? — perguntou Beatriz ao observar melhor o boneco estendido no chão. 
Bárbara olhou para a irmã como quem não quer admitir o erro. Respondeu:
— Claro que ele tem. Vou fazer agora o sorriso mais bonito que existe.
Devo confessar que foi isso mesmo que ela fez. Traçou um belo sorriso na cabeça de barro de Chico de Terra que imediatamente ele ficou de bom humor. A Bia deu pulinhos de alegria. Talvez o boneco lutasse capoeira, já pensou?
Então, chegaram para brincar o Robertinho e o Guilherme, primos das meninas. O Robertinho, um menino magrinho e loirinho de seis anos. O Gui tinha quatro anos e era gordinho. 
— Que estão fazendo? — perguntou o Gui ao se aproximar
— Fizemos o Francisco de Terra — respondeu a Bia.
— Vamos brincar de outra coisa. De mina de diamantes! A gente destrói o boneco e faz a mina para ficar rico — falou o Robertinho.
A Bárbara que era a maior deles (e a mais sensata) disse:
— Ninguém mexe no Chico. 
O Gui estava usando um escudo e uma garra de três pontas de brinquedo e deu a ideia:
— Eu empresto pra ele o meu escudo e a garra de guerreiro.
As crianças até acharam boa a ideia, mas não tinha como colocar a garra na mão de barro do Chico. Nem dar a ele o escuto. Francisco ainda continuava imóvel como qualquer outro boneco preguiçoso. 
Aconteceu de a mãe da Bárbara e da Bia, chamá-las. É que era hora de jantar. As duas foram para dentro de casa, mas o Robertinho e o Gui ficaram brincando no terreiro. Dou um doce a vocês se adivinharem o que os danados dos meninos fizeram. Pois é, eles pisotearam o Francisco de Terra. Fizeram buracos, tiraram terra daqui puseram ali, um serviço tão bem feito que não sobrou nem vestígio do boneco de antes. A Bia e a Bárbara só se lembraram do Chico no dia seguinte e quando foram vê-lo, descobriram que ele não estava mais lá. Acreditam que a Bia ficou feliz? Disse à Bárbara:
— Olha, ele não está mais aqui! Ganhou vida! 
— Não, Bia, não foi isso que aconteceu.  
Mas antes que a Bárbara pudesse explicar à irmã o que tinha acontecido, ouviu o arrulhar de pomba de fim de tarde. Era um som triste, mas vinha do boneco com sorriso que a própria Bárbara tinha feito nele. Francisco acenou para as meninas que não cabiam em si de tanta alegria. Não estava muito longe do monte de terra de sua origem. 
— Agora eu tenho que ir, crianças. Vim da terra, retornarei à terra. As coisas se transformam, não é incrível? O barro é moldável, vem a chuva, a mão de criança e o que sou, fui.


Paul Law, Mogi Guaçu, 06 de março de 2019.

1 de março de 2019

V de Verônica está gratuito a partir de hoje!



O livro " V de Verônica" publicado em formato de e-book no ano de 2018 acaba de entrar em promoção na Amazon. Você vai poder adquirir o livro completo gratuitamente de hoje dia, 01 de março de 2019 até 05 de março de 2019. 

Acesse o link e pegue o seu:


Você pode dar uma força para a obra no Skoob:





Depois da promoção o livro voltará a custar o preço normal de R$ 5,99. 

O que está esperando para baixar o seu?
Abraço!

26 de fevereiro de 2019

A PRINCESA QUE TINHA MEDO DE BARATA - Marcos Cunha


Uma historinha sobre preconceito

"A Princesa que Tinha Medo de Barata" é o segundo livro infantil do escritor Marcos Cunha. Ele será lançado na manhã do dia 9 de março de 2019 no Centro Cultural de Mogi Guaçu/SP. Trata-se de um conto lúdico, mas que tem por premissa ensinar sobre preconceitos.

Somos apresentados à princesa Bella que sempre habitou o castelo de seus pais, cercada de carinho e cuidados. Com o passar dos anos a princesa se tornou uma menina curiosa que desejava intimamente conhecer coisas novas. Seus pais, no entanto, a alertavam dos perigos que habitavam o mundo fora do castelo. Num dia em que o pai se ausentou por conta de uma  convocação de reino vizinho e não deixou ordens pré-estabelecidas, Bella resolver fazer o que tinha vontade. Este é o ponta-pé para a grande aventura que aguarda a princesa que tinha medo de barata.

Num ritmo cadenciado e dinâmico Marcos Cunha nos envolve com esta belíssima história infantil. Ensinando e brincando. Os desenhos de Denise Oliveira Maran contribuem para a experiência de leitura, dando um retrato convincente de como é o mundo da princesa Bella. 

Em suma, uma obra infantil bem acabada que aborda tema relevante. Eu tive acesso ao arquivo digital do livro, mas no dia 09 de março estarei no lançamento para pegar o meu exemplar. Ah, e minhas filhas vão adorar o lançamento, principalmente a surpresa que as aguarda. Falei demais? 

Fica a breve resenha e o convite para o lançamento. 


Eis os dados completos: 
Lançamento do livro A Princesa que Tinha Medo de Barata
Data: 09/03/2019
Hora: 10h
Local: Sala de Vídeo "Célia Maria Stábile", Centro Cultural de Mogi Guaçu, situado na Avenida dos Trabalhadores, nº 2651, Jardim Camargo, Mogi Guaçu/SP.
           

21 de fevereiro de 2019

Problema de memória


Nada de novo me sobreveio nos anos de adulto. É verdade que esqueci o quando e até penso num diploma ou outro. Os olhos de todos gostam de ver um diploma pendurado, mas é bobagem. Não há novidade. Atestados, memorandos, ofícios, papéis que expressam algo que, muito antes, é aprendido. O que é certo é certo, meu filho, assim dizia minha mãe. Meu pai completava: o errado é errado e você sabe disso. Na infância fiz meu Curso de Vida. 

Tenho um problema de memória com o quando ou sou um aluno repetente e incorrigível.  

Paul Law, Mogi Guaçu, 21 de fevereiro de 2019. 

18 de fevereiro de 2019

Memórias Inventadas: As Infâncias de Manoel de Barros



Viver é poesia

Você já deve ter "ouvido falar" de Manoel de Barros, o poeta sul-mato-grossense  que faleceu aos 97 anos de idade no ano de 2014. "Memórias Inventadas, As Infâncias de Manoel de Barros" é um compilado de três livros intitulados de "Memórias Inventadas I, II e III, publicados de 2005 a 2007. Pela obra pode-se ter uma breve noção do que fazia o poeta; do quão íntimo era da Natureza e da Poesia que, no fim das contas, é a mesma coisa.

A divisão em infâncias é proposital. É que o poeta acreditava que a única fase da vida que perdura é a de criança. Assim, a Primeira Infância seria a infância propriamente dita, a Segunda Infância a maturidade e a Terceira seria a velhice. Bem, em tese, ou teoria, coisa que Manoel não gostava muito. Para ele poesia é poesia, não se explica, se entende; se faz. E ele fazia sempre e sem se preocupar com o futuro dos seus versos. Usava lá seus caderninhos artesanais para registrar o mundo de forma singular. Conseguia fazer poesia com temas ignorados pela maioria das pessoas, como , por exemplo, uma lata velha. Numa de suas poesias mais criativas chega a poetizar o ato de obrar. 

Homem culto, mas humilde, amigo dos pássaros e avesso aos doutores. Um exemplo de harmonia com o Mundo e que deixou um legado maravilhoso. Ler Manoel de Barros é como voltar para casa à tarde e observar o sol se pôr. É como ver as estrelas salpicarem o céu aos poucos enquanto a noite chega; escutar o farfalhar das folhas nas árvores. 

Agradeço à escritora Isa Oliveira pela indicação. 

Fica a breve resenha e a dica. 
Abraço!  

   

12 de fevereiro de 2019

Germinando um velho



Estou plantando um idoso no meu quintal. Se tudo der certo, colherei um ser arcado, miúdo, de grossas lentes nos olhos e de pouca audição para os sons de fora. Um homem sempre cansado, mas satisfeito. Lento, em paz e cheio de histórias. Com voz amena, compassada; que fale pouco, Deus do céu, falam muito hoje e a todo momento! Quero que o meu velho deguste do silêncio como de bom café, coado em filtro de pano; que acorde cedo para ver o sol nascer e esteja presente quando o astro-rei for embora. Eu sonho com o meu velho bem sadio; que carregue nos olhos os seus pais, mas que não aceite ser carregado em uma cadeira por seus filhos. Orgulhoso na medida que a morte exige. Homem preparado para o dia último. Digno de se findar com coragem. Difícil para este velho se tornar uma árvore, mas eu tentarei. O chão do quintal é de pedra, nasce nada.

Paul Law,  Mogi Guaçu, 12 de fevereiro de 2019.

  

7 de fevereiro de 2019

Delegado Tobias


Rápido e certeiro

A primeira coisa que eu pensei quando li o título deste livro/conto foi que se tratava de uma narrativa policial intrigante, cujo mistério consistia em descobrir quem era o criminoso. Depois, pensei em algum engano; erro de impressão ou defeito. Faltavam páginas? Só então descobri a verdade: "Delegado Tobias" é um conto super original e inovador! Vale cada minuto de leitura. 

Ricardo Lísias é o autor deste conto e também o personagem central da trama. No enredo ele é um escritor encontrado assassinado em seu apartamento, sendo o delegado Tobias o responsável pelas investigações. Os acontecimentos são relatados em formato de reportagem e vez ou outra duas pessoas estranhas comentam sobre o caso. Dois indivíduos humildes que têm opinião bem simples sobre o caso: o escritor é um drogado maluco. Lá para o meio da história aparece o suspeito e vejam só, ele é homônimo da vítima. Confusão à parte, o exercício explicativo e criativo empregado por Lísias é irônico e cômico. 

Inteligente e crítico "Delegado Tobias" é uma obra sensacional. Textos omissivos, críticos e metalinguística empregada na medida. Mandem soltar o pobre Lísias! 

Até a próxima.    




30 de janeiro de 2019

Fezesman - Antes e depois

Clique na imagem para ampliar

24 de janeiro de 2019

O Legado de Avalon - O Garoto, o Velho e a Espada



O Rei Arthur é adolescente e brasileiro!

Luiz Fabrício Mendes é professor de História, assíduo jogador de vídeo-game e autor do livro "O Legado de Avalon - O Garoto, o Velho e a Espada". Acreditem, esta combinação produz um ótimo resultado literário. 

Neste primeiro livro de "O Legado de Avalon" conhecemos Aurélio, aparentemente um comum adolescente que vive com o avô da periferia do Rio de Janeiro. O que o jovem não sabe é que ele é o único descendente vivo do Rei Arthur; que é caçado pela bruxa Morgana e o filho, além de o dono de uma loja de antiguidade da vizinhança ser o mago Merlin disfarçado. Tudo, no entanto, se desenrola rapidamente, já no primeiro ataque do inimigo à casa do menino, estragando o campeonato de futebol de botão do avô e outros conhecidos. Aurélio Britto precisa deixar sua casa, a vida que tinha e os amigos para recuperar a lendária Excalibur e rumar até um lugar seguro em Minas Gerais. É assim que a aventura começa...

No mesmo ritmo em que o Monza do avô do personagem e o Gol de Junior avançam pela rodovia, vamos mergulhando neste conto de herói moderno, recheado de referências históricas e folclóricas. Geografia também é um ponto a se destacar na narrativa, já que o autor descreve com detalhes os locais visitados pelos aventureiros. Luiz Fabrício adequou sua escrita para o público infanto-juvenil, aquele de Harry Potter, para contar este início de aventura do descendente de Arthur, o que foi muito bom. Amarrou de forma criativa as lendas brasileiras às gringas. Mostrou-se conhecedor do que contava, especialmente sobre a história do Rei Arthur e seus cavaleiros, apresentando um enredo bem construído e passível de continuação.

Em suma, uma obra muito bem construída, intensa em sua maioria; boa de ser lida. Eu ficarei aguardando outra promoção para adquirir "O Legado de Avalon II" e continuar acompanhando Aurélio em sua jornada de aprendizado e batalhas. E tem o romance também...

Fica a resenha e a dica.
Abraço!   


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