18 de setembro de 2019

Opinião sobre "Respeitável Benjamim"



Amigos, hoje trago a opinião do presidente da Academia Guaçuana de Letras de Mogi Guaçu, Luís Braga Junior, sobre o meu livro Respeitável Benjamim. O Luís é um amigo querido e faz um bom trabalho a frente da Academia de Letras da minha cidade. Por falar na AGL, este mês ela completa 20 anos de existência. Parabéns para ela! 

Vejam o que o nobre amigo escreveu:

Gostaria de, em primeiro lugar, elogiá-lo pela sua postura de sempre valorizar autores que estão perto da gente. Achei ótimo você ter inserido uma estrofe da dona Maria Ignez Pereira. Ela merece!

Parabenizo-o também pela riqueza de detalhes. Você é muito bom no que faz. 

Além de um livro de ficção, o conteúdo é, sem dúvida, filosófico. Você trabalhou o paradoxo da existência de uma forma fina, elegante, respeitosa e sincera. 

Uma parte que eu gostei bastante foi "Como você me vê, Isalinda? (...) Não tenho os seus olhos..." Isso quer dizer que o nosso olhar pode ser influenciado. Não somos originais em nada, somos influenciados, inclusive, pelos genes dos nossos pais e você abordou isto no livro. 

Uma outra parte do livro que mexeu comigo foi "Creio que as palavras estão nos ouvidos de quem as escuta e não nos lábios de quem as diz". Sim, nobel escritor, todos os nossos sentidos estão contaminados. Fomos construídos com inúmeras partículas de outras existências - não, não estou defendendo a doutrina da reencarnação e sim que somos influenciados.

Você trouxe também a questão do tempo. Na minha humilde opinião, o tempo é somente um espaço de tempo onde nesses espaços as coisas acontecem. Não acredito que um problema possa ser resolvido com o tempo, ao contrário, pra mim, as coisas podem piorar com o passar do tempo. 

Outro tema muito bem elaborado foi o dilema da morte. Eu, sinceramente, anseio pela morte. Não, não estou depressivo. Anseio a morte porque desejo experiências que nunca tive. Lembremo-nos dos gregos: eros é o amor-desejo. Só desejo aquilo que ainda não tenho; quando tiver, deixarei de desejar. 

Caro confrade, são tantos os temas abordados por você na sua gostosa obra. Liberdade, coragem, existência são temas filosóficos, e detalhe, temas que eu amo. Questões que me fazem pensar e só existo quando penso. Tenho orgasmo intelectual quando reflito, por isso, digo: fora do orgasmo não há salvação. Aqui faço menção do orgasmo no sentido de efervescência de sentimentos, e, data vênia, percebi isso em você. Quando escrevemos, escrevemos sobre a gente ainda que seja uma ficção, assim sendo, seu livro tem a sua cara, o seu cheiro e o seu jeito questionador. Engraçado que, escrevemos e escrevemos, mas não temos respostas; deve ser por isso que continuamos a escrever. Os nossos escritos são tentativas de buscarmos a nossa identidade e o sentido da nossa existência.

Obrigado presidente! Suas palavras me deixam muito feliz.

Se vocês quiserem ler também o livro podem adquiri-lo aqui em caráter de pré-venda (o lançamento será no dia 27 de setembro). Eu adoraria saber a opinião de vocês sobre a obra.

Abraço. 
Paul Law

16 de setembro de 2019

Blog de cara nova e pré-venda de Respeitável Benjamim




Já reparou que estamos de cara nova? O blog mudou de aparência na semana passada, não ficou o máximo? O banner dinâmico no topo da página com os dizeres Paul Law é minha assinatura de verdade. Como ela vai se formando é exatamente como eu faço quado assino. Eu gostei muito! Ah, tem cores novas e botões também. Fontes. Tudo muito bonito. 

Aproveito a oportunidade para dizer que "Respeitável Benjamim" está prontinho para o lançamento. O livro está em pré-venda pelo Amazon, clique no link e adquira em primeira mão a obra por R$ 5,99:




Um abraço!
Paul 

6 de setembro de 2019

A Lei do Trinta está disponível para leitura



No site TopLeituras você pode ler o meu livro "A Lei do Trinta" gratuitamente, Veja só:




Não é legal?
Ah, ainda dá para baixar um resumo em pdf e acessar o link de compra do e-book. 

Se você quiser comprar o livro direto por R$ 5,99 clique aqui

Fica a dica.

28 de agosto de 2019

Vem aí Respeitável Benjamim

Olá amigos leitores. Espero que estejam bem. Venho comunicar que o meu próximo trabalho literário será publicado em breve em formato digital. O título do livro/conto se chama Respeitável Benjamim e se passa em um palco de teatro. 

Vejam a capa em primeira mão:


São quase oitenta páginas com muita referência á espetáculos teatrais e musicais. Literários também. Compartilho a sinopse:

Esta é a história de um menino que queria um novo nome que começasse com a letra A. Enquanto pensa sobre o assunto em sua confortável cadeira, recebe a visita de uma amiga que veio para levá-lo para casa. Decidido a não voltar, com o objetivo de mudar a própria história, Benjamim conhecerá personagens fantásticos que lhe farão refletir sobre o tempo, fim e destino.  Respeitável Benjamim é um conto nada convencional que se passa em um palco de teatro, cujos personagens interpretam outros personagens numa alegoria sobre vida e realidade.  

O livro estará disponível para ser adquirido na loja de e-books da Amazon e custará apenas R$ 5,99. Há previsão de que ele também esteja disponível para ser adquirido por aqui. 

Um trecho: 

— Hoje uma coisa, amanhã outra! Um botão, uma flor e então pétalas secas. Feridas, cicatrizes! Tristeza, alegria! Dia, noite, meses, anos, décadas, centenas, milhares, eu, o sempre. Seguir, pode ouvir? Tic-tac, tic-tac, o tempo flui. O pequeno Benjamim que não gosta do próprio nome e que tem apenas uma cadeira, permanece preso por muitos anos. Seu crime? Quem liga. Mas Dia e Noite dançam (o tango volta a tocar), o tempo passa e com ele os dias de cárcere. Ele então é libertado, mas já não é mais quem era. Quem é Benjamim agora?

O livro será lançado no dia 27 de setembro de 2019. Fiquem ligados! 

Abraço. 
Paul  


20 de agosto de 2019

Macunaíma de Mário de Andrade


Sem nenhuma identidade


Publicado em 1928, Macunaíma é considerado pela crítica literária como a obra-prima do escritor Mário de Andrade. O livro narra a vida do personagem de dá nome ao título da obra, tido como herói sem caráter, desde sua infância com os índios da tribo em que nasceu até sua morte já longe dos seus e de sua cultura. 

A história de Macunaíma começa com sua pré-disposição em "brincar" com as índias. Mesmo em tênue idade, o herói, como Macunaíma é chamado por toda a história, aprende sobre os prazeres da carne. Aliás esta é uma das características mais recorrentes do herói. Ao se engraçar com Ci, a Mãe do Mato, Macunaíma recebe de presente o  Muiraquitã, uma espécie de talismã em forma de animal. No entanto, o herói perde o objeto precioso e a história foca em seu empenho para reaver o artefato que agora se encontra sob a guarda Piaimã, o gigante comedor de gente.  Com toda a sua esperteza, junto de seus dois irmãos, Macunaíma enfrentará o gigante que está desfaçado de rico burguês na cidade de São Paulo. 

Mário de Andrade concebeu uma obra peculiar ao se valer de palavras indígenas e de falsa simplicidade em seus diálogos. A verdade é que Macunaíma é de difícil compreensão, pois os personagens possuem bagagem ideológica indígena, perdida já naqueles tempos. São lendas, mitos e tradições que se foram com os habitantes originais do Brasil (tão estranhas a nós). Este fato funciona como uma crítica á identidade brasileira. Em algumas passagens Macunaíma se rebela contra a cultura de São Paulo; contando sua própria versão sobre um fato. Deuses, estrelas e personagens que divergem do que ele aprendeu na aldeia e que não aceita. Sua batalha contra o gigante nem parece mais tão importante, já que sua estadia em terras tão diferentes vai lhe tirando o prazer pela vida. 

Há um estereótipo de que Macunaíma é um retrato do brasileiro moderno, por conta da sua preguiça, falta de caráter e despreocupação. Na obra, no entanto, tive a ideia de um índio perdido; alguém que tenta lutar contra o fim de sua própria crença. Uma luta difícil e covarde. Ao final, Macunaíma se junta aos seus e dá nome a uma constelação que podemos ver bem.

Um livro único, difícil e de leitura lenta, mas edificante. Por vezes se faz necessário pesquisar alguma palavra indígena e há outras que nem são encontradas, o que pode dificultar a compreensão. O autor diz em suas notas da edição algumas ferramentas que os leitores devem usar para entender melhor a obra, bem como esclarece que gastou pouco mais de seis meses para escrever Macunaíma. 

Fica a breve resenha e dica.  
Abraço! 
Paul Law

           

12 de agosto de 2019

O maior presente do mundo



— O que eu vou dar de presente pro papai? — perguntou Lívia à mãe que organizava a louça lavada. 
Marcela deu de ombros, os olhos baixos, concentrada em seus afazeres, mas atenta ao dizeres da filha. Respondeu: 
— Um boné? Uma bermuda, um jogo de videogame. Acho que seu pai ia gostar de um jogo novo, o que acha? 
 Lívia tinha oito anos e sabia que precisaria da ajuda da mãe para presentear o pai com alguma daquelas sugestões. Não que fosse má ideia, só que não era isso que ela queria; pensava em algo que pudesse providenciar por si mesma... 
— Vamos fazer uma carta pra ele — sugeriu Tina, a irmã mais nova. 
Cristina tinha cinco anos e dera justamente a solução de que Lívia precisava. Era isso! Algo que ela poderia fazer. 
— Boa ideia, Tina! Podemos fazer mais do que isso! Você me ajuda?
Então, as duas começaram a preparar o presente. Lívia pegou uma caixa de papelão retangular de bom tamanho. Tina trouxe o guache e os pincéis.
— Você pinta este lado e eu vou escrever desse outro — falou Lívia.
Ela escreveu “Papai”. Com canetinha fez desenhos de bigode e gravata. Fez dois furinhos nas extremidades e os usou para prender o fio dourado que pegou de um embrulho velho. Ao final tinha uma elegante alça. 
— A caixa está pronta — constatou Tina. — Agora falta o que vai dentro. 
— O conteúdo vai ser o que você disse que ia ser. Vou fazer uma carta bem grande, cheia de desenhos! 
— Eu também!
As duas destacaram várias folhas do caderno de espiral que usavam para desenhar e começaram a escrever e fazer desenhos. Depois, usaram cola para formar um livreto e deixaram secar. 
— O que acha da gente colocar mais coisa? — perguntou Tina. 
— A caixa é grande mesmo, mas não tem mais nada pra colocar.
Marcela observou atentamente o trabalho das filhas naqueles dias. Deu uma sugestão:
— Vou ao mercado hoje e posso trazer bombons, balas. 
— Bala de café. O papai adora café — falou Lívia. 
De tarde o presente estava feito. Três bombons, quatro balas de café e uma de canela estavam por cima de dois livretos coloridos, dentro de uma caixa pintada e desenhada. 
— Agora é só esconder e dar pro papai no dia dos pais — finalizou Marcela. 
 No domingo dos pais Joaquim acordou por volta das nove horas. Fez sua higiene matinal e colocou o café no fogo. Não demorou muito para Lívia e Tina chegarem à cozinha com a caixa de papelão especial. Entusiasmadas entregaram ao pai e deram-lhe um gostoso abraço. Depois de constatar todas as coisas que estavam na caixa, ler as cartas e se emocionar com os dizeres de suas filhas, ele agradeceu. Falou:
— Tem muitos pais e presentes por aí não é? Uns devem ter ganhado camiseta, sapatos ou bermuda. Outros, mais ricos, um relógio, um celular, uma televisão. Deve ter pai mais rico ainda que ganhou ou comprou pra si mesmo um carro novo, uma casa.  Tem muitos carros e casas por aí. Sapatos também. Só que não tem outra caixa dessa no mundo inteiro, já pensaram nisso? Essa caixa, essas cartinhas são únicas, só minhas! Então, eu penso que sou um pai muito especial e feliz que acabou de ganhar o maior presente do mundo! Na verdade, o maior presente é a presença de vocês, minhas filhas. 

Paul Law, Mogi Guaçu, 12 de agosto de 2019.

23 de julho de 2019

Negrinha - Monteiro Lobato


Contos de um Brasil em busca de identidade


Negrinha é um livro de contos de Monteiro Lobato, publicado no ano de 1920, cuja temática, geralmente, é sobre o papel do negro na sociedade brasileira logo após a abolição da escravatura. O primeiro conto, o que dá título ao livro, já foi transcrito integralmente aqui no blog (veja). 

Além de Negrinha, a história de uma garotinha criada por uma antiga senhora de escravos, temos outros contos, dentre eles:  Fitas da Vida, O drama da geada, O Bugio moqueado, O jardineiro Timóteo e O colocador de pronomes. Estes citados fizeram parte da primeira edição do livro, sendo que Os pequeninos, A facada imortal, A policetemia de Dona Lindoca, Duas cavalgaduras, O bom marido Marabá, Fatia de Vida e outros, vieram na segunda edição. A edição que tive acesso conta com o total de 22 contos.

Uma coletânea peculiar de histórias curtas que descreve um Brasil de transição no inicio do século XX. Muitos contos mostram que a abolição da escravidão na prática não mudou a situação do negro. Pelo contrário, o negro passou a ser ainda mais maltratado, uma vez que os antigos senhores ficaram com raiva pela perda de direitos. Tal lei, segundo Monteiro Lobato, fez com que a identidade dos escravos até então muito bem sedimentada, ficasse em xeque. 

Obviamente que os contos não se resumem à escravidão. Em outras histórias Lobato discorre sobre o ego humano, como, por exemplo, em "A Policetemia de Dona Lindoca", cuja doença de nome chique proporciona importância à doente. Fala sobre a maldade, o instinto e tantos outros atributos da alma humana. Em o Colocador de Pronomes, o autor brinca com o emprego dos pronomes lhe e te de forma criativa. 

Em suma, uma pérola de nossa Literatura que descortina uma Monteiro Lobato maduro, senhor do seu tempo e bem avesso ao mundo de fantasia do Sítio do Pica-pau Amarelo. 

Fica a breve resenha e a dica! 
Abraço.
Paul Law.    


   

5 de julho de 2019

Benjamim e Vaidosa



Benjamim se senta em sua cadeira, mas outra princesa chega dançando. Ele a acompanha com a cabeça, enquanto ela se apresenta, meticulosa. É uma exímia dançarina, tem um corpo belo, as pernas fortes. Parece flutuar. A música termina e a bailarina faz uma reverência à plateia. Eles batem palmas. Ela pede mais palmas. A plateia a atende. 
— Bravo! — Benjamim também bate palmas, sentado. 
— Saudações. Sou Vaidosa, a mulher mais bonita do mundo. 
— De certo não é modesta. 
— Obviamente — ela pede mais uma salva de palmas, mas poucos correspondem ao pedido. 
— Venho informar que você terá a grande honra de ser meu esposo. Dentre os homens mais belos de todos os cantos da Terra, eu Princesa Vaidosa escolhi Benjamim para ser meu companheiro. É uma honra singular, percebe? 
— Não estou muito certo disso. 
— Ainda nem te contei a melhor parte, ouça. Tudo o que toco permanece belo para sempre! Se formarmos um casal, poderei dar um jeito nesse seu cabelo crespo, nessa sua cor. Talvez até na cadeira... 
— Agradecido, mas tenho um conceito diferente de beleza. Não me acho feio, posso adiantar. O belo para mim tem a ver com natureza. Tudo que existe sem interferência humana é bonito. Claro que o que o homem modifica também pode ser considerado bonito, vai de cada um, mas eu vejo tal beleza de forma artificial. Quando você mudar o meu cabelo, por exemplo, deixando-o liso, muitos julgarão bonito. Eles acostumaram a ver cabelos lisos por aí e pensam que é bonito por padrão. Só que é um engano, pois os cabelos crespos combinam perfeitamente com as cabeças que estão por baixo. O meu é perfeito! Veja que o nariz, a boca, os olhos, tudo está no seu devido lugar e se observado em conjunto notará a beleza de que falo. Ser único já é suficiente para ser belo. 
— Não tem vontade de ser considerado bonito pelas outras pessoas? De ouvir: ali vai Benjamim, o mais belo. Eu adoro ouvir elogios!
— Bobagem. 
— Não importa, ouviu bem minha proposta? Se não quer ser belo, eu entendo, mas não compreendo não desejar a esposa mais linda. Para falar a verdade, se não é e nem faz questão de ser bonito não me merece como companheira. Agora sou eu que não quero mais me casar com você. Passar bem!
Sai Vaidosa pela direita pisando alto. Duas das três princesas que ainda faltam se apresentar ficam apreensivas.

Paul Law, Mogi Guaçu, 20 de maio de 2019.

25 de junho de 2019

Crônica do Pássaro de Corda - Haruki Murakami




Um mundo oculto 

Haruki Murakami é um escritor japonês que mora dos Estados Unidos. Fortemente influenciado pela cultura ocidental,  tem um modo todo peculiar para escrever. Neste romance intitulado como Crônica do Pássaro de Corda ele deixa aflorar toda a sua capacidade imaginativa, criando um mundo (ou mundos) fantástico e intrigante.

A história começa com o desaparecimento do gato Noburu Wataya de Okada e Kumiko, um típico jovem casal japonês. Okada acabou de deixar o emprego de auxiliar num escritório de advocacia e ainda não encontrou uma nova profissão, ficando a sua cargo os afazeres domésticos. Kumiko é quem trabalha fora, numa revista. É dela a ideia de pedir ao marido que encontre o gato sumido, utilizando os serviços de uma detetive espiritual chamada Malta Kano. Como avançar da história, descobre-se que o sumiço do gato tem a ver com um problema mais complexo; que envolve outras pessoas e mundos. A esposa de Okada confessa traí-lo e deixa a residência, desaparecendo completamente. A vida de ambos corre perigo se Okada tentar reencontrar a esposa. É exatamente isso que o Pássaro de Cordas fará.

O livro de quase oitocentas páginas é um emaranhado de histórias sóbrias e pontuadas no tempo misturadas ao fantástico, sobrenatural. Não é clara a relação dos fatos, deixando ao leitor a tarefa de fazer relações. O conceito de "mundo dos espíritos" é fortemente explorado na obra. Um local sem tempo ou espaço acessível apenas pelos desenvolvidos espiritualmente. Coisas acontecidas neste além influenciam o mundo como conhecemos. O autor é criativo ao "dar vida" às personagens. Cada uma tem suas características peculiares; Creta Kano, por exemplo, é uma prostituta espiritual. Pessoas comuns e fantásticas perpassam pelos dias de Okada e o ajudam a descobrir o que verdadeiramente ocorreu com sua esposa e como ele poderá salvá-la. 

Bem, o próprio personagem principal tem seus problemas. Ele não tem renda, não tem perspectiva de vida e encontra-se no fundo do poço. Passa um tempo de verdade no fundo de um poço e é isto que o faz "ser iluminado" pela verdade. Ou parte dela; uma chama que o faz buscar tudo. É que Okada tem certa sensibilidade... No final, ficamos com a impressão de ter lido uma história longa, bem contada e não tão bem amarrada. O ponto positivo é que o desfecho não é o esperado, fugindo do clichê das histórias do gênero; aqueles em que o cavaleiro salva a donzela. 

Em suma, uma história não linear, fragmentada e longa, cujo final é original. Espaço, tempo e realidade são aspectos constantes em Crônicas do Pássaro de Corda, numa abrangência original e cativante. Fica a dica e a breve resenha, dado o tamanho da obra. 

Abraço.
Paul Law  

3 de junho de 2019

Espaço Pequeno



Que possamos fazer por merecer antes de pedir. O merecimento está nos olhos dos outros e quando ele estiver nos nosso, que não seja em relação a atos próprios. Reclamar também não é prudente; que o tempo gasto com o inconformismo seja dispendido com adaptação. Por último e mais importante, que o espaço que ocupamos no mundo seja pequeno, mas de ausência sentida. 


Paul Law, Mogi Guaçu, 03 de junho de 2019 

   

28 de maio de 2019

MOSTRA DE LITERATURA POPULAR ASSIS ODERAN

Ocorreu no final de semana passado, nos dias 25 e 26 de maio de 2019, a 2ª Mostra Literária Popular Assis Oderan. O evento foi realizado na Chácara Silvestre em São Bernardo do Campo e contou com a participação de vários artistas da região.

O Artista Plástico José Pereira de Souza, o Zep, é o organizador da Mostra Literária. Jamelão, criador do projeto Anjos da Rua e Inspirados aqui de Mogi Guaçu esteve presente e representou nossa cidade no evento cultural. Ele conferiu a obra de dois escritores guaçuanos na Mostra: Marcos Cunha e Paul Law.

Veja algumas imagens do evento:

Zep ao lado do poeta Assis Oderan, o artista que leva o nome da Mostra Literária
A apresentação do Grupo de Capoeira São Bernardo


Vários artistas participaram!

Ester, O Segredo da Lancheira e A Menina que Tinha Medo de Barata estavam lá

Os livros de Marcos Cunha

Zep e Jamelão expondo os nossos livros!

Sucesso!

Fica registrado o meu agradecimento ao Zep por acreditar em nós; por dar espaço e voz à Cultura do povo. Ao Jamelão por nos representar e sempre acreditar nos nossos meninos.

Fica o registro!
Abraço.       

17 de maio de 2019

Benjamim e Famosa



A música do começo do ato começa a tocar e Benjamim dança com as outras cinco princesas. Quando a música cessa, uma delas está nos braços do rapaz. É uma mulher ofegante, forte, magra, de cabelos louros, arrumados num coque tradicional. 
— Saudações, sou Princesa Famosa. Case-se comigo, Benjamim, e terá reconhecimento. Por todos os séculos se lembrarão do menino e sua cadeira; falarão o nome Benjamim em teatros do mundo todo. Esta peça receberá prêmios, você títulos. Que tal? 
— Devo admitir que você mexe comigo. Desde o momento em que entrou no palco, chamou minha atenção por causa dos seus olhos de ressaca tal qual Capitu de Machado — Benjamim, desvia os olhos do rosto de Famosa. — És perigosa, penso. O ego é terrível, minha cara princesa.
— Ora, vamos. Pense mais em si mesmo. Não acha que merece ser reconhecido? Que sua história é importante? Não é disso que se trata este grande espetáculo? Sei que sim, eu te conheço...
— Não duvido. Mas, veja, se eu fizer algo pensando em reconhecimento não estarei agindo com segundas intenções? Não foi Kant que ensinou às pessoas a evitarem a agir pensando num resultado? Uma ação é uma ação, não duas! Então, se eu ajudar alguém com a intenção de ser ajudado por esta pessoa numa outra ocasião não seria apenas uma ação? A ação de cobrar mais tarde. Eu seria uma péssima pessoa se minhas ações fossem assim, não acha? 
— Todos fazem isso. 
— Talvez, mas eu não quero ser como todos. Já não sou, não vê? Busco a liberdade; fazer o que tenho vontade. Penso que se eu não tiver vontade de ajudar alguém, não devo ajudar. Sei que parece horrível falar assim, mas é melhor deixar de agir do que agir com segundas intenções. É mais honesto. 
— Quem liga para o que é honesto, para o que é melhor? Cada qual se importa consigo mesmo. Os outros vão te admirar se fizer algo para eles, mesmo que cobre o favor depois. Além disso, quando estiver no topo, ninguém vai se lembrar dos seus defeitos! Não seja burro, Benjamim. Eu sei que você não é! 
— Sabes de mim, não nego. Admito que gosto de você, mas quero ouvir as outras pretendentes. 
— Eu vou, mas sempre estarei presente.

Paul Law, Mogi Guaçu, 22 de abril de 2019

2 de maio de 2019

Cheiro de Tarde



Quando o sol vai se pondo, as cores do dia, descolorindo e os pássaros começam a se amontoarem nas árvores, a Tarde começa a emanar o seu cheiro. O cheiro da Tarde me parece um misto de fim com começo, um cheiro de mato esfriando; de folha de eucalipto batida com cana-de-açúcar; minhoca revirada num potinho de pescar; água de açude. Tem som também, muitos, mas só consigo me lembrar do de água passando. 


Paul Law, Mogi Guaçu, 02 de maio de 2019
    

12 de abril de 2019

Benjamim e Rica



A luz se apaga. Outros bailarinos entram no palco pelo lado esquerdo. São seis moças que começam a dançar “O Lago dos Cisnes” de Peter Ilich Tchaikovsky. São suaves, leves e imponentes, quase que iguais fisicamente, trajando collant e saia tutu negros; meia-calça branca e sapatilhas pretas. Rodeiam Benjamim e dançam alegremente. A música cessa e uma delas faz uma reverência ao rapaz. Fala:
— Saudações, sou princesa e desejo me casar com o senhor! 
As outras bailarinas fazem o mesmo e dizem as mesmas palavras. Benjamim se afasta e responde:
— Sei bem quem são, mas francamente não me agrada ser cortejado. 
— Qualquer um de nós poderá te dar felicidade! Eu sou Rica. 
— Rica? — pergunta Benjamim. 
— Sim, diga-me o que deseja. Moedas de ouro? Súditos? Uma coroa cravejada de diamantes! Dentre as seis pretendentes sou aquela que pode de dar tudo! 
— Já parou para pensar em riqueza? Eu, certamente, apesar de estarmos nos conhecendo agora. O grosso livro chamado dicionário bem diz que riqueza é ter grande quantidade de dinheiro, posses, bens materiais, propriedades.
— Exatamente o meu caso — Rica estufa o peito ao dizer estas palavras.
— Não digo o contrário, mas raciocine comigo: temos dias contados sobre a Terra; temos batidas certas de coração para dar. Pouco tempo para usufruir e preferes gastá-lo para juntar? São duas ações diferentes usufruir e juntar e não se pode fazer as duas ao mesmo tempo. O meu receio é passar os meus poucos dias amontoado coisas ao invés de desfrutá-las. Seria terrível se Sempre Assim passasse mais uma vez e me dissesse: seu tempo acabou! Depois viria a senhora Finda Perecida e me diria: ora de ir! Eu ficaria desesperado, olharia para trás e pensaria no quanto ainda tenho que fazer; no tempo que gastei fazendo algo ruim ao invés de uma coisa boa. 
— Desculpa de plebe. Eu sou princesa, meu pai era rei, meu filho, aquele que gostaria de ter contigo será rei. Não precisará juntar, pois já juntaram antes dele. Dinheiro não trás felicidade? Balela! 
— Sei que para um rico é difícil pensar em não ser rico. Preferes se preocupar com posses, planos, construções e ações que busquem aumentar seu patrimônio do que ter paz. Mesmo que tenha muito e que todos os seus dias sejam insuficientes para gastar o que já lhe é herança, ainda assim não terá paz. Pensará que podem lhe roubar; que o dinheiro está acabando; que lhe tratam com segundas intenções. A paz não é para os ricos. 
— Não me importo com a paz desde que haja fortuna. Case-se comigo e seja feliz! 
— Eu me importo com a paz.  
Rica não consegue esconder sua frustração. Palavras pulam do seu cérebro para a boca, mas ela as segura com os lábios. Pensa, repensa, tem vontade de insultar Benjamim, mas se contém. Na ponta dos pés, com as mãos na cintura dá uma volta ao redor do jovem, ganhando mais calma. Ela tem uma reputação a zelar, um status a manter. O que dirão as outras princesas? Então finaliza:
— Ouvirá as outras pretendentes e verás que sou um bom partido, a melhor na verdade. Uma lástima que não note agora. Depois de todas e se eu ainda te querer, poderemos ficar juntos.
A Princesa Rica sai pela esquerda pisando alto. A música do começo do ato começa a tocar e Benjamim dança com as outras cinco princesas. Quando a música cessa, uma delas está nos braços do rapaz. É uma mulher ofegante, forte, magra, de cabelos louros, arrumados num coque tradicional. 

Paul Law, Mogi Guaçu, 20 de março de 2019

3 de abril de 2019

Negrinha

Fascinação”, Pedro Peres, 1909, Pinacoteca do Estado de São Paulo. Fonte: https://ensinarhistoriajoelza.com.br/negrinha-de-monteiro-lobato-preconceito-e-racismo/ - Blog: Ensinar História - Joelza Ester Domingues

Negrinha

Negrinha era uma pobre órfã de sete anos. Preta? Não; fusca, mulatinha escura, de cabelos ruços e olhos assustados.

Nascera na senzala, de mãe escrava, e seus primeiros anos vivera-os pelos cantos escuros da cozinha, sobre velha esteira e trapos imundos. Sempre escondida, que a patroa não gostava de crianças.

Excelente senhora, a patroa. Gorda, rica, dona do mundo, amimada dos padres, com lugar certo na igreja e camarote de luxo reservado no céu. Entaladas as banhas no trono (uma cadeira de balanço na sala de jantar), ali bordava, recebia as amigas e o vigário, dando audiências, discutindo o tempo. Uma virtuosa senhora em suma — “dama de grandes virtudes apostólicas, esteio da religião e da moral”, dizia o reverendo.

Ótima, a dona Inácia.

Mas não admitia choro de criança. Ai! Punha-lhe os nervos em carne viva. Viúva sem filhos, não a calejara o choro da carne de sua carne, e por isso não suportava o choro da carne alheia. Assim, mal vagia, longe, na cozinha, a triste criança, gritava logo nervosa:

— Quem é a peste que está chorando aí?

Quem havia de ser? A pia de lavar pratos? O pilão? O forno? A mãe da criminosa abafava a boquinha da filha e afastava-se com ela para os fundos do quintal, torcendo-lhe em caminho beliscões de desespero.

— Cale a boca, diabo!

No entanto, aquele choro nunca vinha sem razão. Fome quase sempre, ou frio, desses que entanguem pés e mãos e fazem-nos doer...

Assim cresceu Negrinha — magra, atrofiada, com os olhos eternamente assustados. Órfã aos quatro anos, por ali ficou feito gato sem dono, levada a pontapés. Não compreendia a idéia dos grandes. Batiam-lhe sempre, por ação ou omissão. A mesma coisa, o mesmo ato, a mesma palavra provocava ora risadas, ora castigos. Aprendeu a andar, mas quase não andava. Com pretextos de que às soltas reinaria no quintal, estragando as plantas, a boa senhora punha-a na sala, ao pé de si, num desvão da porta.

— Sentadinha aí, e bico, hein?

Negrinha imobilizava-se no canto, horas e horas.

— Braços cruzados, já, diabo!

Cruzava os bracinhos a tremer, sempre com o susto nos olhos. E o tempo corria. E o relógio batia uma, duas, três, quatro, cinco horas — um cuco tão engraçadinho! Era seu divertimento vê-lo abrir a janela e cantar as horas com a bocarra vermelha, arrufando as asas. Sorria-se então por dentro, feliz um instante.

Puseram-na depois a fazer crochê, e as horas se lhe iam a espichar trancinhas sem fim.

Que idéia faria de si essa criança que nunca ouvira uma palavra de carinho? Pestinha, diabo, coruja, barata descascada, bruxa, pata-choca, pinto gorado, mosca-morta, sujeira, bisca, trapo, cachorrinha, coisa-ruim, lixo — não tinha conta o número de apelidos com que a mimoseavam. Tempo houve em que foi a bubônica. A epidemia andava na berra, como a grande novidade, e Negrinha viu-se logo apelidada assim — por sinal que achou linda a palavra. Perceberam-no e suprimiram-na da lista. Estava escrito que não teria um gostinho só na vida — nem esse de personalizar a peste...

O corpo de Negrinha era tatuado de sinais, cicatrizes, vergões. Batiam nele os da casa todos os dias, houvesse ou não houvesse motivo. Sua pobre carne exercia para os cascudos, cocres e beliscões a mesma atração que o ímã exerce para o aço. Mãos em cujos nós de dedos comichasse um cocre, era mão que se descarregaria dos fluidos em sua cabeça. De passagem. Coisa de rir e ver a careta...

A excelente dona Inácia era mestra na arte de judiar de crianças. Vinha da escravidão, fora senhora de escravos — e daquelas ferozes, amigas de ouvir cantar o bolo e estalar o bacalhau. Nunca se afizera ao regime novo — essa indecência de negro igual a branco e qualquer coisinha: a polícia! “Qualquer coisinha”: uma mucama assada ao forno porque se engraçou dela o senhor; uma novena de relho porque disse: “Como é ruim, a sinhá!”...

O 13 de Maio tirou-lhe das mãos o azorrague, mas não lhe tirou da alma a gana. Conservava Negrinha em casa como remédio para os frenesis. Inocente derivativo:

— Ai! Como alivia a gente uma boa roda de cocres bem fincados!...

Tinha de contentar-se com isso, judiaria miúda, os níqueis da crueldade. Cocres: mão fechada com raiva e nós de dedos que cantam no coco do paciente. Puxões de orelha: o torcido, de despegar a concha (bom! bom! bom! gostoso de dar) e o a duas mãos, o sacudido. A gama inteira dos beliscões: do miudinho, com a ponta da unha, à torcida do umbigo, equivalente ao puxão de orelha. A esfregadela: roda de tapas, cascudos, pontapés e safanões a uma — divertidíssimo! A vara de marmelo, flexível, cortante: para “doer fino” nada melhor!

Era pouco, mas antes isso do que nada. Lá de quando em quando vinha um castigo maior para desobstruir o fígado e matar as saudades do bom tempo. Foi assim com aquela história do ovo quente.

Não sabem! Ora! Uma criada nova furtara do prato de Negrinha — coisa de rir — um pedacinho de carne que ela vinha guardando para o fim. A criança não sofreou a revolta — atirou-lhe um dos nomes com que a mimoseavam todos os dias.

— “Peste?” Espere aí! Você vai ver quem é peste — e foi contar o caso à patroa.

Dona Inácia estava azeda, necessitadíssima de derivativos. Sua cara iluminou-se.

— Eu curo ela! — disse, e desentalando do trono as banhas foi para a cozinha, qual perua choca, a rufar as saias.

— Traga um ovo.

Veio o ovo. Dona Inácia mesmo pô-lo na água a ferver; e de mãos à cinta, gozando-se na prelibação da tortura, ficou de pé uns minutos, à espera. Seus olhos contentes envolviam a mísera criança que, encolhidinha a um canto, aguardava trêmula alguma coisa de nunca visto. Quando o ovo chegou a ponto, a boa senhora chamou:

— Venha cá!

Negrinha aproximou-se.

— Abra a boca!

Negrinha abriu aboca, como o cuco, e fechou os olhos. A patroa, então, com uma colher, tirou da água “pulando” o ovo e zás! na boca da pequena. E antes que o urro de dor saísse, suas mãos amordaçaram-na até que o ovo arrefecesse. Negrinha urrou surdamente, pelo nariz. Esperneou. Mas só. Nem os vizinhos chegaram a perceber aquilo. Depois:

— Diga nomes feios aos mais velhos outra vez, ouviu, peste?

E a virtuosa dama voltou contente da vida para o trono, a fim de receber o vigário que chegava.

— Ah, monsenhor! Não se pode ser boa nesta vida... Estou criando aquela pobre órfã, filha da Cesária — mas que trabalheira me dá!

— A caridade é a mais bela das virtudes cristas, minha senhora —murmurou o padre.

— Sim, mas cansa...

— Quem dá aos pobres empresta a Deus.

A boa senhora suspirou resignadamente.

— Inda é o que vale...

Certo dezembro vieram passar as férias com Santa Inácia duas sobrinhas suas, pequenotas, lindas meninas louras, ricas, nascidas e criadas em ninho de plumas.

Do seu canto na sala do trono, Negrinha viu-as irromperem pela casa como dois anjos do céu — alegres, pulando e rindo com a vivacidade de cachorrinhos novos. Negrinha olhou imediatamente para a senhora, certa de vê-la armada para desferir contra os anjos invasores o raio dum castigo tremendo.

Mas abriu a boca: a sinhá ria-se também... Quê? Pois não era crime brincar? Estaria tudo mudado — e findo o seu inferno — e aberto o céu? No enlevo da doce ilusão, Negrinha levantou-se e veio para a festa infantil, fascinada pela alegria dos anjos.

Mas a dura lição da desigualdade humana lhe chicoteou a alma. Beliscão no umbigo, e nos ouvidos, o som cruel de todos os dias: “Já para o seu lugar, pestinha! Não se enxerga”?

Com lágrimas dolorosas, menos de dor física que de angústia moral —sofrimento novo que se vinha acrescer aos já conhecidos — a triste criança encorujou-se no cantinho de sempre.

— Quem é, titia? — perguntou uma das meninas, curiosa.

— Quem há de ser? — disse a tia, num suspiro de vítima. — Uma caridade minha. Não me corrijo, vivo criando essas pobres de Deus... Uma órfã. Mas brinquem, filhinhas, a casa é grande, brinquem por aí afora.

— Brinquem! Brincar! Como seria bom brincar! — refletiu com suas lágrimas, no canto, a dolorosa martirzinha, que até ali só brincara em imaginação com o cuco.

Chegaram as malas e logo:

— Meus brinquedos! — reclamaram as duas meninas.

Uma criada abriu-as e tirou os brinquedos.

Que maravilha! Um cavalo de pau!... Negrinha arregalava os olhos. Nunca imaginara coisa assim tão galante. Um cavalinho! E mais... Que é aquilo? Uma criancinha de cabelos amarelos... que falava “mamã”... que dormia...

Era de êxtase o olhar de Negrinha. Nunca vira uma boneca e nem sequer sabia o nome desse brinquedo. Mas compreendeu que era uma criança artificial.

— É feita?... — perguntou, extasiada.

E dominada pelo enlevo, num momento em que a senhora saiu da sala a providenciar sobre a arrumação das meninas, Negrinha esqueceu o beliscão,o ovo quente, tudo, e aproximou-se da criatura de louça. Olhou-a com assombrado encanto, sem jeito, sem ânimo de pegá-la.

As meninas admiraram-se daquilo.

— Nunca viu boneca?

— Boneca? — repetiu Negrinha. — Chama-se Boneca?

Riram-se as fidalgas de tanta ingenuidade.

— Como é boba! — disseram. — E você como se chama?

— Negrinha.

As meninas novamente torceram-se de riso; mas vendo que o êxtase da bobinha perdurava, disseram, apresentando-lhe a boneca:

— Pegue!

Negrinha olhou para os lados, ressabiada, como coração aos pinotes. Que ventura, santo Deus! Seria possível? Depois pegou a boneca. E muito sem jeito, como quem pega o Senhor menino, sorria para ela e para as meninas, com assustados relanços de olhos para a porta. Fora de si, literalmente... era como se penetrara no céu e os anjos a rodeassem, e um filhinho de anjo lhe tivesse vindo adormecer ao colo. Tamanho foi o seu enlevo que não viu chegar a patroa, já de volta. Dona Inácia entreparou, feroz, e esteve uns instantes assim, apreciando a cena.

Mas era tal a alegria das hóspedes ante a surpresa extática de Negrinha, e tão grande a força irradiante da felicidade desta, que o seu duro coração afinal bambeou. E pela primeira vez na vida foi mulher. Apiedou-se.

Ao percebê-la na sala Negrinha havia tremido, passando-lhe num relance pela cabeça a imagem do ovo quente e hipóteses de castigos ainda piores. E incoercíveis lágrimas de pavor assomaram-lhe aos olhos.

Falhou tudo isso, porém. O que sobreveio foi a coisa mais inesperada do mundo — estas palavras, as primeiras que ela ouviu, doces, na vida:

— Vão todas brincar no jardim, e vá você também, mas veja lá, hein?

Negrinha ergueu os olhos para a patroa, olhos ainda de susto e terror. Mas não viu mais a fera antiga. Compreendeu vagamente e sorriu.

Se alguma vez a gratidão sorriu na vida, foi naquela surrada carinha...

Varia a pele, a condição, mas a alma da criança é a mesma — na princesinha e na mendiga. E para ambos é a boneca o supremo enlevo. Dá a natureza dois momentos divinos à vida da mulher: o momento da boneca — preparatório —, e o momento dos filhos — definitivo. Depois disso, está extinta a mulher.

Negrinha, coisa humana, percebeu nesse dia da boneca que tinha uma alma. Divina eclosão! Surpresa maravilhosa do mundo que trazia em si e que desabrochava, afinal, como fulgurante flor de luz. Sentiu-se elevada à altura de ente humano. Cessara de ser coisa — e doravante ser-lhe-ia impossível viver a vida de coisa. Se não era coisa! Se sentia! Se vibrava!

Assim foi — e essa consciência a matou.

Terminadas as férias, partiram as meninas levando consigo a boneca, e a casa voltou ao ramerrão habitual. Só não voltou a si Negrinha. Sentia-se outra, inteiramente transformada.

Dona Inácia, pensativa, já a não atazanava tanto, e na cozinha uma criada nova, boa de coração, amenizava-lhe a vida.

Negrinha, não obstante, caíra numa tristeza infinita. Mal comia e perdera a expressão de susto que tinha nos olhos. Trazia-os agora nostálgicos, cismarentos.

Aquele dezembro de férias, luminosa rajada de céu trevas adentro do seu doloroso inferno, envenenara-a.

Brincara ao sol, no jardim. Brincara!... Acalentara, dias seguidos, a linda boneca loura, tão boa, tão quieta, a dizer mamã, a cerrar os olhos para dormir. Vivera realizando sonhos da imaginação. Desabrochara-se de alma.

Morreu na esteirinha rota, abandonada de todos, como um gato sem dono. Jamais, entretanto, ninguém morreu com maior beleza. O delírio rodeou-a de bonecas, todas louras, de olhos azuis. E de anjos... E bonecas e anjos remoinhavam-lhe em torno, numa farândola do céu. Sentia-se agarrada por aquelas mãozinhas de louça — abraçada, rodopiada.

Veio a tontura; uma névoa envolveu tudo. E tudo regirou em seguida, confusamente, num disco. Ressoaram vozes apagadas, longe, e pela última vez o cuco lhe apareceu de boca aberta.

Mas, imóvel, sem rufar as asas.

Foi-se apagando. O vermelho da goela desmaiou...

E tudo se esvaiu em trevas.

Depois, vala comum. A terra papou com indiferença aquela carnezinha de terceira — uma miséria, trinta quilos mal pesados...

E de Negrinha ficaram no mundo apenas duas impressões. Uma cômica, na memória das meninas ricas.

— “Lembras-te daquela bobinha da titia, que nunca vira boneca?”

Outra de saudade, no nó dos dedos de dona Inácia.

— “Como era boa para um cocre!...”




O Conto Negrinha faz parte de um livro de contos ficcional de mesmo título, escrito por Monteiro Lobato, publicado em 1920.

28 de março de 2019

A Viúva Silenciosa - Tilly Bagshawe


Um romance policial mediano

Sidney Sheldon é um escritor muito conhecido, detentor de números impressionantes. Escreveu muitos livros, trabalhou com televisão e consolidou o seu nome no mercado. Embora alguns torçam o nariz quanto a obra dele por julgarem comercial demais; pouco inovador, fato é que o autor fez muito sucesso. Tanto que, mesmo após sua morte continua a publicar livros. Claro que a pessoa física Sidney Sheldon não é responsável pelas obras, mas sua família transformou o nome "Sidney Sheldon" em uma marca. Nesse ponto entra a escritora Tilly Bagshawe, a verdadeira autora do livro. Segundo a própria viúva de Sheldon, Tilly tem um estilo muito próximo ao do autor e neste "A Viúva Silenciosa" podemos conferir se ela está certa ou não.

A história gira em torno da bela psicóloga Nikki Roberts e assassinatos. Duas pessoas ligadas à doutora Roberts são mortas: uma de suas pacientes e o seu secretário. Os detetives Goodman e Johnson começam a investigar os crimes, mas pouco avançam. Um deles, o preconceituoso Mick Johnson até chega a teorizar que Nikki é a criminosa. Contudo, após contratar o detetive particular Willian, a psicóloga começa a desvendar os crimes e perceber que tudo aquilo faz parte de algo muito maior, envolvendo o próprio assassinato do seu marido, tráfico de drogas e corrupção.

Leitores atentos vão perceber que o enredo de "A Viúva Silenciosa" é similar ao de "A Outra Face", este último assinado de verdade por Sheldon. Terá a impressão, inclusive, que Bagshawe se "inspirou em tal obra para criar a história da doutora Roberts. Trocou o psicanalista Judd pela psicóloga Nikki. Até mesmo as pessoas que morrem no início da trama possuem funções idênticas e são em mesmo número: dois. Estes fatos tiram o brilho de uma obra original. Obviamente que "A Viúva Silenciosa" não é só uma imitação de um livro famoso e antigo. Há elementos atuais, como a questão do preconceito, o politicamente correto e assédio. Contudo, a trama acaba sendo superficial e artificial. Sheldon era meticuloso com a descrição dos locais e Bagshawe tenta imitá-lo neste quesito. Até consegue no começo, mas depois, conforme a autora vai ganhando liberdade, suas características ficam mais evidentes. Tilly é mais da ação, explosiva; menos detalhista com o cenário.  

Uma leitura longa, empolgante em alguns pontos, mas que peca por tentar criar uma "fórmula de Sidney Sheldon de escrever livro". 

Fica a resenha. 

25 de março de 2019

O Profeta Jessé



O profeta Jessé ergueu as mãos e duas rodas de suor ficaram evidentes embaixo dos seus braços. A manta dourada não era eficiente para esconder a transpiração e ficava feio nas filmagens. Muitos fiéis acompanhavam a pregação sob o sol escaldante daquela tarde e o espaço aberto improvisado para um “sermão” parecia insuficiente. Jessé pediu um copo de água para os seus súditos mais próximos. Segurou o recipiente transparente com as duas mãos e bebeu, trêmulo por causa do Parkinson. Agradeceu com uma reverência e começou mais um dos seus sermões:
— É bobagem dizer que o homem peca. Deus sabendo de tudo, sabe da Natureza humana e concorda com ela. Ele sabe que o homem cometerá erros e não se importa com isso! Deus quer que o homem peque e aprenda com o pecado para que, por si mesmo não volte a pecar. Então, caríssimos fiéis pequem o necessário para aprender com vossos erros. 
Ouviu-se inúmeros comentários, confusos. Murilo, o discípulo mais próximo de Jessé baixou os olhos já ciente da confusão que as palavras do mestre causavam. Em toda cidade era a mesma coisa.
— Esqueçam as regras pré-estabelecidas se elas não significam nada a vocês. Se o preceito de assassinar alguém não parece errado a um homem, poderá ele matar pelo menos uma vez. Porque após causar uma morte, o homem verá por si mesmo que cometeu um erro e não voltará a cometê-lo.
— Este homem é louco! — bradou alguém. 
Jessé uniu as duas mãos em prece. 
— Rezem comigo. Peçam por serenidade a fim de aprender com os erros e coragem para não os repetir depois de saber que é errado o que fazem. Coragem para não pecar mesmo que seja grande a vantagem. Nada é maior do que fazer o certo. 
Após os minutos destinados a oração da coragem e serenidade, como o profeta chamava aquele exercício moral, formou-se a fila tradicional para a realização dos milagres, a verdadeira razão de todos estarem ali.

Paul Law, Mogi Guaçu, 29 de novembro de 2018.

13 de março de 2019

6 de março de 2019

Francisco de Terra



Era uma vez duas irmãs que gostavam de brincar com terra. A mais velha, de nove anos, se chamava Bárbara; a menor tinha o nome de Beatriz e contava com cinco anos. Certo dia, uma segunda-feira para ser preciso, as duas criaram Francisco de Terra. Sim, de terra por parte de mãe; dos primos de areia e dos tios de pedrisco. Um boneco muito especial, feito de barro e imaginação como tudo que é bom deve ser feito. Não foi com isso que Deus criou o homem? Claro que Bárbara e Bia não eram Deus, apenas duas meninas brincando. 
Foi assim que se deu a Criação (e olha que demorou viu!): a Bárbara juntou terra marrom; a Bia buscou água. As duas misturaram as coisas. Depois de pronto o Chico ficou com quase um metro de tamanho! Pernas finas, um pé grande outro menor, um joelho mais baixo do que outro e uma cabeça bem redonda. Era careca, tinha olhos de buraco de dedo de criança em bolo de aniversário. 
— E a boca? Ele não tem boca? — perguntou Beatriz ao observar melhor o boneco estendido no chão. 
Bárbara olhou para a irmã como quem não quer admitir o erro. Respondeu:
— Claro que ele tem. Vou fazer agora o sorriso mais bonito que existe.
Devo confessar que foi isso mesmo que ela fez. Traçou um belo sorriso na cabeça de barro de Chico de Terra que imediatamente ele ficou de bom humor. A Bia deu pulinhos de alegria. Talvez o boneco lutasse capoeira, já pensou?
Então, chegaram para brincar o Robertinho e o Guilherme, primos das meninas. O Robertinho, um menino magrinho e loirinho de seis anos. O Gui tinha quatro anos e era gordinho. 
— Que estão fazendo? — perguntou o Gui ao se aproximar
— Fizemos o Francisco de Terra — respondeu a Bia.
— Vamos brincar de outra coisa. De mina de diamantes! A gente destrói o boneco e faz a mina para ficar rico — falou o Robertinho.
A Bárbara que era a maior deles (e a mais sensata) disse:
— Ninguém mexe no Chico. 
O Gui estava usando um escudo e uma garra de três pontas de brinquedo e deu a ideia:
— Eu empresto pra ele o meu escudo e a garra de guerreiro.
As crianças até acharam boa a ideia, mas não tinha como colocar a garra na mão de barro do Chico. Nem dar a ele o escuto. Francisco ainda continuava imóvel como qualquer outro boneco preguiçoso. 
Aconteceu de a mãe da Bárbara e da Bia, chamá-las. É que era hora de jantar. As duas foram para dentro de casa, mas o Robertinho e o Gui ficaram brincando no terreiro. Dou um doce a vocês se adivinharem o que os danados dos meninos fizeram. Pois é, eles pisotearam o Francisco de Terra. Fizeram buracos, tiraram terra daqui puseram ali, um serviço tão bem feito que não sobrou nem vestígio do boneco de antes. A Bia e a Bárbara só se lembraram do Chico no dia seguinte e quando foram vê-lo, descobriram que ele não estava mais lá. Acreditam que a Bia ficou feliz? Disse à Bárbara:
— Olha, ele não está mais aqui! Ganhou vida! 
— Não, Bia, não foi isso que aconteceu.  
Mas antes que a Bárbara pudesse explicar à irmã o que tinha acontecido, ouviu o arrulhar de pomba de fim de tarde. Era um som triste, mas vinha do boneco com sorriso que a própria Bárbara tinha feito nele. Francisco acenou para as meninas que não cabiam em si de tanta alegria. Não estava muito longe do monte de terra de sua origem. 
— Agora eu tenho que ir, crianças. Vim da terra, retornarei à terra. As coisas se transformam, não é incrível? O barro é moldável, vem a chuva, a mão de criança e o que sou, fui.


Paul Law, Mogi Guaçu, 06 de março de 2019.

1 de março de 2019

V de Verônica está gratuito a partir de hoje!



O livro " V de Verônica" publicado em formato de e-book no ano de 2018 acaba de entrar em promoção na Amazon. Você vai poder adquirir o livro completo gratuitamente de hoje dia, 01 de março de 2019 até 05 de março de 2019. 

Acesse o link e pegue o seu:


Você pode dar uma força para a obra no Skoob:





Depois da promoção o livro voltará a custar o preço normal de R$ 5,99. 

O que está esperando para baixar o seu?
Abraço!

26 de fevereiro de 2019

A PRINCESA QUE TINHA MEDO DE BARATA - Marcos Cunha


Uma historinha sobre preconceito

"A Princesa que Tinha Medo de Barata" é o segundo livro infantil do escritor Marcos Cunha. Ele será lançado na manhã do dia 9 de março de 2019 no Centro Cultural de Mogi Guaçu/SP. Trata-se de um conto lúdico, mas que tem por premissa ensinar sobre preconceitos.

Somos apresentados à princesa Bella que sempre habitou o castelo de seus pais, cercada de carinho e cuidados. Com o passar dos anos a princesa se tornou uma menina curiosa que desejava intimamente conhecer coisas novas. Seus pais, no entanto, a alertavam dos perigos que habitavam o mundo fora do castelo. Num dia em que o pai se ausentou por conta de uma  convocação de reino vizinho e não deixou ordens pré-estabelecidas, Bella resolver fazer o que tinha vontade. Este é o ponta-pé para a grande aventura que aguarda a princesa que tinha medo de barata.

Num ritmo cadenciado e dinâmico Marcos Cunha nos envolve com esta belíssima história infantil. Ensinando e brincando. Os desenhos de Denise Oliveira Maran contribuem para a experiência de leitura, dando um retrato convincente de como é o mundo da princesa Bella. 

Em suma, uma obra infantil bem acabada que aborda tema relevante. Eu tive acesso ao arquivo digital do livro, mas no dia 09 de março estarei no lançamento para pegar o meu exemplar. Ah, e minhas filhas vão adorar o lançamento, principalmente a surpresa que as aguarda. Falei demais? 

Fica a breve resenha e o convite para o lançamento. 


Eis os dados completos: 
Lançamento do livro A Princesa que Tinha Medo de Barata
Data: 09/03/2019
Hora: 10h
Local: Sala de Vídeo "Célia Maria Stábile", Centro Cultural de Mogi Guaçu, situado na Avenida dos Trabalhadores, nº 2651, Jardim Camargo, Mogi Guaçu/SP.
           

21 de fevereiro de 2019

Problema de memória


Nada de novo me sobreveio nos anos de adulto. É verdade que esqueci o quando e até penso num diploma ou outro. Os olhos de todos gostam de ver um diploma pendurado, mas é bobagem. Não há novidade. Atestados, memorandos, ofícios, papéis que expressam algo que, muito antes, é aprendido. O que é certo é certo, meu filho, assim dizia minha mãe. Meu pai completava: o errado é errado e você sabe disso. Na infância fiz meu Curso de Vida. 

Tenho um problema de memória com o quando ou sou um aluno repetente e incorrigível.  

Paul Law, Mogi Guaçu, 21 de fevereiro de 2019. 

18 de fevereiro de 2019

Memórias Inventadas: As Infâncias de Manoel de Barros



Viver é poesia

Você já deve ter "ouvido falar" de Manoel de Barros, o poeta sul-mato-grossense  que faleceu aos 97 anos de idade no ano de 2014. "Memórias Inventadas, As Infâncias de Manoel de Barros" é um compilado de três livros intitulados de "Memórias Inventadas I, II e III, publicados de 2005 a 2007. Pela obra pode-se ter uma breve noção do que fazia o poeta; do quão íntimo era da Natureza e da Poesia que, no fim das contas, é a mesma coisa.

A divisão em infâncias é proposital. É que o poeta acreditava que a única fase da vida que perdura é a de criança. Assim, a Primeira Infância seria a infância propriamente dita, a Segunda Infância a maturidade e a Terceira seria a velhice. Bem, em tese, ou teoria, coisa que Manoel não gostava muito. Para ele poesia é poesia, não se explica, se entende; se faz. E ele fazia sempre e sem se preocupar com o futuro dos seus versos. Usava lá seus caderninhos artesanais para registrar o mundo de forma singular. Conseguia fazer poesia com temas ignorados pela maioria das pessoas, como , por exemplo, uma lata velha. Numa de suas poesias mais criativas chega a poetizar o ato de obrar. 

Homem culto, mas humilde, amigo dos pássaros e avesso aos doutores. Um exemplo de harmonia com o Mundo e que deixou um legado maravilhoso. Ler Manoel de Barros é como voltar para casa à tarde e observar o sol se pôr. É como ver as estrelas salpicarem o céu aos poucos enquanto a noite chega; escutar o farfalhar das folhas nas árvores. 

Agradeço à escritora Isa Oliveira pela indicação. 

Fica a breve resenha e a dica. 
Abraço!  

   

12 de fevereiro de 2019

Germinando um velho



Estou plantando um idoso no meu quintal. Se tudo der certo, colherei um ser arcado, miúdo, de grossas lentes nos olhos e de pouca audição para os sons de fora. Um homem sempre cansado, mas satisfeito. Lento, em paz e cheio de histórias. Com voz amena, compassada; que fale pouco, Deus do céu, falam muito hoje e a todo momento! Quero que o meu velho deguste do silêncio como de bom café, coado em filtro de pano; que acorde cedo para ver o sol nascer e esteja presente quando o astro-rei for embora. Eu sonho com o meu velho bem sadio; que carregue nos olhos os seus pais, mas que não aceite ser carregado em uma cadeira por seus filhos. Orgulhoso na medida que a morte exige. Homem preparado para o dia último. Digno de se findar com coragem. Difícil para este velho se tornar uma árvore, mas eu tentarei. O chão do quintal é de pedra, nasce nada.

Paul Law,  Mogi Guaçu, 12 de fevereiro de 2019.