24 de janeiro de 2019

O Legado de Avalon - O Garoto, o Velho e a Espada



O Rei Arthur é adolescente e brasileiro!

Luiz Fabrício Mendes é professor de História, assíduo jogador de vídeo-game e autor do livro "O Legado de Avalon - O Garoto, o Velho e a Espada". Acreditem, esta combinação produz um ótimo resultado literário. 

Neste primeiro livro de "O Legado de Avalon" conhecemos Aurélio, aparentemente um comum adolescente que vive com o avô da periferia do Rio de Janeiro. O que o jovem não sabe é que ele é o único descendente vivo do Rei Arthur; que é caçado pela bruxa Morgana e o filho, além de o dono de uma loja de antiguidade da vizinhança ser o mago Merlin disfarçado. Tudo, no entanto, se desenrola rapidamente, já no primeiro ataque do inimigo à casa do menino, estragando o campeonato de futebol de botão do avô e outros conhecidos. Aurélio Britto precisa deixar sua casa, a vida que tinha e os amigos para recuperar a lendária Excalibur e rumar até um lugar seguro em Minas Gerais. É assim que a aventura começa...

No mesmo ritmo em que o Monza do avô do personagem e o Gol de Junior avançam pela rodovia, vamos mergulhando neste conto de herói moderno, recheado de referências históricas e folclóricas. Geografia também é um ponto a se destacar na narrativa, já que o autor descreve com detalhes os locais visitados pelos aventureiros. Luiz Fabrício adequou sua escrita para o público infanto-juvenil, aquele de Harry Potter, para contar este início de aventura do descendente de Arthur, o que foi muito bom. Amarrou de forma criativa as lendas brasileiras às gringas. Mostrou-se conhecedor do que contava, especialmente sobre a história do Rei Arthur e seus cavaleiros, apresentando um enredo bem construído e passível de continuação.

Em suma, uma obra muito bem construída, intensa em sua maioria; boa de ser lida. Eu ficarei aguardando outra promoção para adquirir "O Legado de Avalon II" e continuar acompanhando Aurélio em sua jornada de aprendizado e batalhas. E tem o romance também...

Fica a resenha e a dica.
Abraço!   


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17 de dezembro de 2018

O Maravilhoso Bistrô Francês - Nina George


Nunca é tarde para ser feliz

Se em "A Livraria Mágica de Paris" (resenha pode ser lida aqui) Nina George fala da magia da leitura em "O Maravilhoso Bistrô Francês ela explora o poder da pintura. Dessa vez temos um novo lugar, uma nova personagem e muitos sentimentos. O que é evidente nas duas obras da autora é o seu gosto por falar de Arte e de lugares incríveis. 

Tudo começa com Marianne, uma mulher de 60 anos, tentando cometer suicídio pulando da ponte do Rio Sena. O plano dá errado, ela é salva e levada ao hospital onde ficará em observação até a manhã seguinte, quando terá alta médica e voltara para a vida da qual tentou se desvincilhar. Durante a noite por estar faminta ela "rouba" alguns biscoitos das enfermeiras e acaba encontrado um pequeno quadro com a pintura do porto de Kerdruc. Então, ela tem a ideia de ir até o local para se matar. Apenas com o dinheiro do seguro recebido por causa do acidente na ponte ela parte para Kerdruc, deixando o marido e sua vida triste. Pega carona, caminha e acaba chegando ao local retratado no quadrinho, mas as coisas vão acontecendo e ela vai adiando o suicídio... 

Assim é "O Maravilhoso Bistrô Francês" que tem este nome por causa do lugar em que Marianne acaba arrumando emprego. Lá ela conhece pessoas incríveis como o chefe Jeanremy, a garçonete Laurine, a dona do restaurante Geneviéve, os beberrões Paul e Simon e muitos outros que transformam completamente a vida da personagem. Marianne redescobre o gosto pela vida, aprende a lidar com o sofrimento e amor, numa saga de muito aprendizado. Encontrar a felicidade tem ligação com encontrar-se a si mesmo. 

Nina George é muito eficiente trabalhando com sentimentos. Explora doenças terminais na dosagem certa, sem ser piegas ou superficial. Há verdade no que lemos. As personagens, por sua vez, também são autênticas, bastando mencionar que Marianne é uma senhora de sessenta anos, totalmente submissa ao marido que acidentalmente redescobre o gosto por viver. Não é incrível pensar uma personagem assim? De idade não convencional e de uma beleza que não se enxerga com os olhos. Obviamente que nem todos os personagens são aprofundados na trama, mas George fez questão de fechar todas as histórias.  

Ah, e tem um parte muito interessante no final do livro. Uma entrevista com a autora em que ela explica como se inspira e o que pensa da carreira de escritor. Fala de realizações e do privilégio de poder ser uma bruxa das letras.  

Uma obra que fala de feminismo, de velhice, de amor, de perda e de recontro; tudo acontecendo num dos lugares mais belos do planeta. Leitura recomendadíssima! 

Fica a resenha e a dica!
Abraço.              

7 de dezembro de 2018

UM BRINDE AOS ELFOS, RENAS E CRIANÇAS QUE NÃO GANHAM PRESENTES



Mary se ajeitou no sofá gasto depois de um cochilo. Coçou os olhos com as mãos trêmulas do Parkinson e se espreguiçou. Que horas eram? De certo o marido já tinha saído. As luzes da árvore de natal piscavam em vermelho, amarelo e verde, iluminando a pequena sala, cujo televisor se mantinha desligado, encostado na parede lateral. Já era mais de meia noite, observou no relógio de madeira circular no alto da parede, constatando que Nicolau já tinha partido como em todos os anos. Coitado, ainda tivera o trabalho de desligar a caixa de imagens antes de deixar a casa. Era dele pensar nos outros antes de si mesmo; era sua virtude lembrar de todos. Mary sorriu, ajeitando os pés calçados por meias brancas nas chinelas antigas. Levantou-se e arrastou os pés até a cozinha para tomar um copo de leite antes de dormir, afinal quando amanhecesse teria um grande dia. 
— Ah! Que susto! — disse Mary ao apertar o interruptor de luz — Que aconteceu? Alguma rena morreu? O trenó se quebrou? Os presentes não ficaram prontos? O Mundo se acabou enquanto eu cochilei?
— Nada disso — respondeu-lhe o velho barbudo, empurrando o copo para longe de si — Eu não quis sair esta noite. 
— Não quis sair? Eu estou com muito medo agora... 
Nicolau deu um rápido sorriso. Irônico, desesperador? Só Mary sabia. Sacudiu a cabeça em negação. Estava tudo errado, tudo! 
— Libertei os Elfos, soltei as renas. Como eu podia continuar dormindo em paz depois te tantos anos fazendo isso... 
— Está louco? As crianças estão esperando pelos presentes! 
— Elas vão se virar bem sem mim.  
Mary franziu o cenho por um momento. Pensou em responder, conteve-se. Puxou uma cadeira e se sentou. Há séculos o marido fazia aquilo e em nenhuma ocasião tinha se atrasado. Desistir? Esta possibilidade jamais fora aventada! Nicolau sempre lhe pareceu um velhinho feliz, de risada gostosa e otimista! O que o afligia? A esposa do Papai Noel não precisou perguntar. 
— No início achava que o que eu fazia era importante e correto. Dar presentes! Ora, quem não gosta de recebê-los? Mas os anos foram me mostrando que pouco faço de bom, Mary. Tomemos por exemplo os Elfos que trabalham na minha fábrica de brinquedos. Acha que eles recebem salário? Que trabalham apenas oito horas diárias? De forma alguma! Vamos às renas agora: elas cruzam os céus dos quatro cantos no Mundo em apenas uma noite sem parar para hidratação ou alimentação. Isto é maus-tratos com os animais! 
— Mas Nicolau, todos adoram o Natal. Os Elfos e as renas sabem disso e doam suas vidas para o bem maior que é entregar presentes a todas as crianças! 
— Vou te contar uma grande novidade e aí que vem a principal razão de eu desistir do meu trabalho. Têm muitas crianças no Mundo que não recebem presentes. 
— Não acredito. 
— Vai ouvindo. O trabalho que realizo é ínfimo se comparado ao número real de infantes viventes. Não é só! Há muitas pessoas que acham normal o fato de crianças ficarem sem nada, enquanto algumas ganham diversos presentes. 
— Meu Deus, isto é terrível! Onde está o Espírito Natalino nessas pessoas? 
— Descobri que o Natal é só uma desculpa para fomentar o comércio. Nós dois sabemos o segredo do comércio; que para o produto ser caro, precisa ser desejado. Para ser desejado, precisa ser raro e sendo para poucos é preciso que muitas crianças fiquem sem presentes!
— Eu não sei o que dizer, Nicolau. 
— Não diga. Pegue um copo e me ajude a esvaziar esta garrafa. Vamos brindar em honra dos Elfos, renas e das crianças que não ganham presentes.  

Paul Law, Mogi Guaçu, 07 de dezembro de 2018.

28 de novembro de 2018

O que define uma vassoura




Treze estacionou sua moto na garagem do condomínio em que residia na periferia da cidade. O local era ideal para alguém como ele que podia pagar adiantado em troca de discrição. Retirou o capacete, deixando visível os cabelos presos por um coque. Galgou os degraus do edifício sem elevador, abriu a porta carcomida de cupins e entrou. Jogou o capacete no chão de carpete, abaixou o zíper do macacão negro e colado ao pequeno corpo e se despiu. 
Observou algumas das suas tatuagens: textos escritos ao contrário; que só podiam ser lidos em frente ao espelho e fontes de informações sobre quem fora e o que podia fazer. Como seriam as próximas anotações invertidas? 
“Pense em um nome, já que não é mais um Coletor da Copas. Isto mesmo, você traiu aqueles que te criaram”. 
Por ora era apenas isto que Treze pensaria em registrar. 
Caminhou até o espelho grande que ocupava toda a parede da sala. Fitou o próprio rosto ainda estranho aos olhos. Não, aqueles olhos também não eram mais os seus. Aqueles olhos que se tornaram azuis, aquele nariz agora fino, levemente arrebitado, o queixo largo, as orelhas grandes que diminuíam de tamanho dia após dia. A cicatriz no meio do pescoço, aqueles lábios cada vez mais femininos, assim como a voz. 
Várias partes do grande espelho estavam preenchidas por frases escritas com pincel atômico. Quando se é o que Treze é, há a necessidade de anotar. Ela observou algumas anotações. Leu:
“Quem é você?”
“Tirando o cabo de uma vassoura, ela ainda será uma vassoura?”
“Onde fica a alma de um ser humano?”
“Ela ainda está aqui? Ela ainda está lá?”
Sempre dividido em dois, unido a outrem, um novo indivíduo. Somas e divisões que culminavam sempre em perda. Depois, o dolorido recomeço e quando as coisas finalmente entravam em harmonia vinha a ruptura mais uma vez. Era para ele ser perfeito, meticulosamente preparado para não cometer erros, por isso tantas vezes. 
Lembrou-se da ocasião em que dera um soco contra o espelho, os sinais ainda estavam no local. Na verdade, eram também registros importantes e serviam a mesma causa das anotações: defini-lo de alguma forma.  Deu as costas ao espelho e se sentou no sofá da sala. Agarrou algumas páginas que repousavam sobre a superfície e começou a estuda-las. 
O caso. Clara. Copas.

Paul Law, Mogi Guaçu, 04 de julho de 2018

13 de novembro de 2018

Ainda mais uma vez


O barulho do rádio chiando atraiu a atenção do motorista. Ele girou o botão para procurar uma nova estação, mas nenhuma parecia funcionar. As que sintonizavam, estavam exibindo “A Voz do Brasil” O programa falava da visita do Papa João Paulo II ao Brasil, marcada para o final do mês de junho. Seria a primeira visita do pontífice, mas Caio detestava religião. O jovem Promotor de Justiça acreditava em Deus, mas não na instituição Igreja; não nos padres e toda aquela ladainha de pecado. Girou no sentido anti-horário para procurar uma nova estação de rádio. Nada de novo. Pense, não faz sentido Deus se importar com as atitudes humanas. Tem que haver algo mais importante; que dure; seja intenso para valer a atenção de Deus. E outra se Deus é onisciente, sabe das limitações dos homens e concorda com elas. E para botar um fim na discussão, se Ele é bom, certamente não colocaria atravessadores no caminho daqueles que desejam se aproximar dele. Apesar de não ser pai, teve uma boa figura paterna com quem aprendeu que Deus era um pai. Simples assim: Deus é um pai que ama seu filho. Como todo ser que ama quer sempre o bem do amado. Sabe respeitar, se colocar no lugar dos outros. Só vai ajudar se o pedido for sincero.
Depois de desistir de encontrar uma estação que não estivesse exibindo o programa obrigatório, pegou no porta-luvas do Opala 76 uma caixinha de k7, impaciente. O som de freada brusca, tirou Caio dos devaneios relacionados ao rádio e religião. Levantou os olhos e focalizou o Chevette negro parado a frente. Pisou no freio com toda a força do mundo, rezando para que desse tempo de parar o automóvel antes da colisão. Os pneus travaram e seu carro derrapou um pouco, perdendo a traseira, mas não o suficiente para tirá-lo da pista. Parou muito próximo do veículo atravessado na marginal, ouvindo parte de uma notícia qualquer na rádio sintonizada. A fumaça da frenagem brusca foi se dissipando enquanto Caio entendia o que se passava. Levou a mão ao coldre embaixo do braço esquerdo, mas era tarde demais.        
A rajada de disparos contra o carro de Caio foi observada da calçada por Aida. Ela pensava no triste destino do jovem Promotor que estava tão próximo de desmantelar um esquema municipal de desvio de dinheiro público. Um daqueles que parecem uma linha solta de uma camisa. Você vai puxando a linha, desfazendo a costura e estragando a roupa toda. Quando mais a linha fosse puxada mais pessoas seriam descobertas, mais esquemas e regiões envolvidas.
Alguém cortou a linha. Não era a primeira vez, não seria a última.
Apenas em algumas ocasiões Caio tem uma vida longa que termina em uma cama quente rodeada de bons amigos e parentes. Na maioria das vezes, morre jovem por causa de algum envolvimento político ou jurídico. Ele tenta evitar, mas está em seu DNA, está em sua alma, chame do que preferir, se importar; se envolver e ser silenciado. Aida já o viu nesta situação inúmeras vezes. Ele não aprende? O que o motiva a ser tão tolo?
O carro dos bandidos sai acelerado, o do Promotor, imóvel. 
Aida puxa o anel do anelar esquerdo, desaparece. 
Ela retorna ao Oito, gosta de imaginar que é manhã, embora sempre seja meio-dia. Em frente há uma mesa de madeira que precisa ser envernizada, cuja superfície está cheia de anéis dourados ou prateados. Sobre eles há um homem. Um homem velho, miúdo e careca, de óculos com lentes grossas. Ao notá-la, ele ergue o rosto e retira os óculos. As chamas das velas que iluminam o local tremulam.
— Como foi dessa vez?
Aida coloca o anel em cima da mesa. Diz:
— Assassinato.
O velho sorri. Ele pinça com delicadeza a joia deixada por Aida.
— Cada um deles é único. Há trilhões, todos diferentes, você sabe. Além disso, podem alterar seus futuros por escolhas! Não é belíssimo?
— De fato, mas não consigo compreender certas escolhas. 
— É por isso que os estudamos! Eu lustro, dou brilho mantenho todos guardados e vocês usam — Bento devolve a joia com cuidado à mesa.
— Descansarei por enquanto, mas logo volto para pegar o anel para nova tentativa. 
— Ele estará como novo quando voltar. 
— Agradecida.

Paul Law, Mogi Guaçu, 1 de novembro de 2018.